Tem certeza de que isso é sobre você?

Alguém respondeu sua mensagem com um “ok” um pouco mais seco do que o habitual.

Pronto. Você releu, conferiu a pontuação, comparou mentalmente com outros “oks” daquela pessoa e concluiu que havia alguma coisa errada. Será que foi o que você disse ontem? Será que ficou chateada? Será que alguém falou alguma coisa?

Enquanto isso, do outro lado da cidade, a pessoa talvez estivesse apenas tentando responder antes que o arroz queimasse.

Temos uma habilidade impressionante de conseguir papel principal em histórias para as quais talvez nem tenhamos sido escalados. Duas pessoas cochicham e olham na nossa direção. Um amigo demora para responder. Alguém passa e não cumprimenta. Rapidamente começamos a procurar nossa participação no enredo.

É quase comovente a confiança que depositamos na nossa importância.

Claro que, às vezes, é sobre nós. Pessoas se irritam conosco, interpretam mal o que fazemos e até falam pelas nossas costas. A questão é que não sabemos até sabermos.

O problema começa quando uma interpretação ganha status de fato antes de qualquer confirmação. “Ele está quieto” vira “está bravo comigo”. E então já não reagimos ao que aconteceu, mas ao que imaginamos que aconteceu.

Somos bastante eficientes nisso. Ficamos magoados com uma intenção que supusemos, respondemos a uma hostilidade que talvez nem existisse e, com algum empenho, conseguimos criar um problema verdadeiro a partir de um problema imaginário.

Talvez ajude lembrar do óbvio: as outras pessoas também têm uma vida acontecendo. Elas dormem mal, recebem notícias ruins, têm preocupações, boletos, dores de cabeça e dias em que simplesmente não estão com vontade de distribuir simpatia pela cidade.

Por isso, antes de assumir o papel principal, vale perguntar: “Eu tenho alguma evidência de que isso é sobre mim?”

Se tiver, converse, esclareça, lide com o que aconteceu. Se não tiver, talvez seja prudente esperar antes de escrever sozinho o restante do roteiro.

Descobrir que nem tudo é sobre nós pode causar uma pequena indisposição na vaidade, mas é também uma notícia extraordinariamente libertadora.

Às vezes, o “ok” era só um “ok”.