Espiar, expiar e expurgar

Segundo o historiador Leandro Karnal, Para expiarmos nossos erros é necessário antes espiá-los e ver o que eles são e como nos relacionamos com eles.

Como seres humanos erramos de forma contumaz, porém temos a tendência da autoindulgência. Essa tendência é o hábito de minimizarmos ou justificarmos os próprios erros sem assumirmos a devida responsabilidade. Desta forma, em vez de aprendermos com as falhas, buscamos justificativas e criamos desculpas para nós mesmos. Tentamos evitar a autocrítica e, muitas vezes, culpabilizamos terceiros por nossos próprios erros.

O hábito de espiarmos nossos erros nos dá uma perspectiva de nossos desejos e nossas fraquezas, e de que forma construímos nossa personalidade e nos relacionamos com os outros no cotidiano. Porém, espiar-nos é um recurso que infelizmente não está presente em todos nós. Temos a tendência da autoindulgência pela qual tentamos justificar, por exemplo, nossa misoginia, LGBTfobia, xenofobia, racismo, capacitismo etc. Atacamos tudo e todos que não se moldam àquilo que entendemos como “normal”, porém dizermos a nós mesmos que somos nós a medida da verdade e do comportamento moral.

Por isso é tão difícil espiarmos para poder expiar nossas falhas. Pois, se não conseguimos ser críticos e reconhecer nossas ações como moral e legalmente erradas, nunca perceberemos nem mudaremos essas ações e continuaremos indefinidamente repetindo-as.

Karnal nos convida a olharmos criticamente quem somos e como interagimos com as outras pessoas. Convida-nos a desenvolver empatia e desenvolvermos um olhar sobre o lugar de fala e sobre como esse lugar influencia quem se expressa e sobre o que se expressa.

Em síntese, ele nos convida para espiarmos quem somos para podermos expiar nossos erros. E eu acrescentaria: Espiar a si mesmo é desconfortável. Expiar os próprios erros, ainda mais. Mas somente quem reconhece o que precisa mudar pode, de fato, mudar. Nosce te ipsum!

Jure et facto.