Correções libertadoras

Numa noite adornada de estrelas, depois das fadigas do dia estuante de beleza, o Mestre meditava defronte do mar em

Numa noite adornada de estrelas, depois das fadigas do dia estuante de beleza, o Mestre meditava defronte do mar em Cafarnaum, na casa de Simão, quando o amigo, que lhe acompanhava o silêncio, tendo a mente ardente de interrogações, endereçou-lhe algumas dúvidas, pedindo esclarecimentos.

                – Senhor! – expôs timidamente – Eu gostaria de entender por que a dor chibateia com tanta força o dorso das criaturas indefesas. Para onde direcionamos o olhar, defrontamos a miséria, a enfermidade, as agonias e a morte ceifando as vidas. Mesmo nos lares abastados o sofrimento faz residência, ferindo os mais delicados sentimentos e dilacerando as mais caras aspirações.

                Silenciou por um pouco, para logo prosseguir, organizando as reflexões:

                – Pessoas laboriosas dedicam-se à produção das coisas corretas e não progridem, enquanto que outras, desonestas e mesmo cruéis prosperam a olhos vistos?! Tenho amigos que se empenham pelo ganha-pão honrado, amargando dificuldades e carências sem nome. Como entender-se o magnânimo amor de Nosso Pai nessas situações?

                – Simão – inquiriu o Mestre – como se comporta o pai responsável cujos filhos desobedientes, não lhe seguem as orientações?

                – Repreende-os, Senhor – redargüiu o pescador interessado.

                – E, se apesar das advertências, os meninos permanecem inconseqüentes?

                – Aplica-lhes corretivos mais severos, a fim de ajudá-los.

                – Respondeste bem, Simão. Nosso Pai a todos criou para a conquista da felicidade espiritual e eterna. A estância na Terra é transitória, como oportunidade de realizar-se uma saudável aprendizagem para a posterior aplicação do conhecimento. A Vida real é a do Espírito, enquanto que o corpo é a roupagem transitória com finalidade específica: Facultar o desenvolvimento moral no convívio com as demais criaturas. Quando saudáveis, atiram-se pelos sórdidos labirintos do prazer insano, assumindo comportamentos desvairados. Utilizam-se dos recursos valiosos que lhes são concedidos para o uso extravagante e abusivo do prazer corporal, afligindo o próximo em alucinada correria pelas satisfações vis, incessantes, perturbadoras…

                Por amor, o Pai faculta-lhes prosseguir sob chuvas de ácido e calhaus que acumulam sobre as próprias cabeças, experimentando as conseqüências da insensatez… Ninguém é convocado ao sofrimento sem uma anterior causa justa. Que ocorre, porém, com o ser humano, nessas circunstâncias? Podendo aproveitar as lições para reequilíbrio, atiram-se nos abismos da rebeldia, blasfemam, ameaçam, vociferam, mais complicando o quadro das próprias dores. Cada qual é, portanto, responsável pelo que lhe sucede, em razão da justiça das Soberanas Leis…

                – Quando arrojamos algo para cima, inevitavelmente retorna… Assim também são os pensamentos, palavras e atos que são direcionados à Vida…

                – São felizes, Simão, aqueles que se encontram em correção libertadora, porque se purificam para o reino dos céus. A existência terrena, tida como feliz, isto é, sem preocupações financeiras, sem problemas sociais, com saúde perfeita, não representa muito para quem a desfruta, mas concessão divina para ser utilizada, delineando as futuras experiências iluminativas. Desse modo, quem a malbarata, retorna em escassez; aquele que a perverte, volve excruciado pela sua ausência; todo e qualquer que a corrompe pelo uso indevido, refaz o caminho, recolhendo as pedras e os espinhos que deixou em abundância…

Bem sei que, no atual estágio da evolução humana, considera-se a felicidade como sendo a ausência de problemas e a alegria na condição de falta de preocupações… Mas o reino dos Céus é diferente das conjunturas humanas, começando nas fronteiras do comportamento terrestre.

 

Livro: ATÉ O FIM DOS TEMPOS. Amélia Rodrigues (Espírito). Psicografia Divaldo Pereira Franco. Livraria Espírita Alvorada Editora. Salvador. BA. 2000.

Manoel Ataídes Pinheiro de Souza. CEAC. Guaraniaçu – PR.  [email protected]