Inesperada observação

Assim que a fama de Jesus se espalhou fartamente, dizia-se, em torno de Genesaré, que o Messias jamais desprezava o

Assim que a fama de Jesus se espalhou fartamente, dizia-se, em torno de Genesaré, que o Messias jamais desprezava o ensejo de ensinar o bem, por meio de todos os quadros da Natureza.

                Ante as ondas revoltas, comentava as paixões que devastam a criatura; contemplando algum ninho com filhotes tenros, exaltava a sublimidade dos elos da família; à frente das flores campesinas, louvava a tranqüilidade e a segurança das coisas simples; ouvindo o cântico das aves, reportava-se às harmonias do Alto. Ocasião houve em que de uma semente de mostarda extraiu glorioso símbolo para a fé e, numa tarde fulgurante de pregação consoladora, encontrara inesquecíveis imagens do Reino de Deus, lembrando um trigal. Explanou sobre o amor celeste, recorrendo a uma dracma perdida, e surgiu um instante, ó surpresa divina, em que o Cristo subtraíra infortunada pecadora ao apedrejamento, usando palavras que lhe denunciavam a prefeita compreensão da justiça!

                Reconhecia e proclamada a sabedoria dEle, porfiavam os discípulos em lhe arrancarem referências nobres e sábias palavras. Por mais se revezassem na exposição de feridas e maldades humanas, curiosos de aprender-lhe a conceituação da vida, o Mestre demonstrara incessante recursos na descoberta da “melhor parte”.

                Como ninguém, sabia advogar a causa dos infelizes e identificar atenuantes para as faltas alheias, guardando o respeito que sempre consagrou à ordem. Guerreava abertamente o mal e chicoteava o pecado. Entretanto, estava pronto invariavelmente ao socorro e amparo das vítimas. Se vivia de pé contra os monstros da perversidade e da ignorância, nunca foi observado sem compaixão para com os desventurados e falidos  da sorte. Levantava e animava sempre. Estimulava as qualidades superiores sem descanso, surpreendia ângulos iluminados nas figuras aparentemente trevosas.

                Impressionados com aquela feição  dEle, Tiago e João, certa feita, ao regressarem de rápida estada em Cesaréia, traziam, espantados, o caso de um ladrão confesso, que fora ruidosamente trancafiado no cárcere…

                Pisando Cafarnaum, de retorno, Tiago disse ao irmão, após relacionar as dificuldades do prisioneiro:

                – Que diria o Senhor se viesse a sabê-lo? Tiraria ilações benéficas de acontecimento tão escabroso?

                Ouvido pelo irmão, com indisfarçável interesse, rematou:

                – Dar-lhe-ei notícias do sucedido.

                Com efeito, depois de abraçarem Jesus, de volta, o filho de Zebedeu passou a narrar-lhe a ocorrência desagradável, em frases longas e inúteis.

                – O criminoso de Cesaréia – descreveu, prolixo – fora preso em flagrante, em seguida à audaciosa tentativa de roubo, que perdurara por seis meses consecutivos. Conhecia, por meio de informações, vasto ninho de jóias  pertencentes a importante família romana, e, por cento e oitenta dias, cavara ocultamente a parede rochosa, de modo a pilhar as preciosidades, sem testemunhas. Fizera-se passar por escravo misérrimo, sofrera açoites na carne, padecera fome e sede, por determinações de capatazes insolentes, trabahara de sol a sol num campo não distante da residência patrícia, tão só para valer-se da noite, na transposição do obstáculo que o inibia de apropriar-se dos camafeus e das pedras, das redes de ouro e dos braceletes de brilhantes. Na derradeira noite de trabalho sutil, foi seguido pela observação de um guarda cuidadoso e, quando mergulhava as mãos ávidas no tesouro  imenso, eis que dois vigilantes espadaúdos agarram-no pressurosos. Buscou escapar, mas debalde. Rudes bofetadas amassaram-lhe o rosto, e dos braços duramente golpeados corria profusamente o sangue. Aturdido, espancado, depois de sofrer pesada humilhação, o infeliz, agonizando, fora posto a ferros em condições nas quais nas quais, talvez, não lhe seria dado esperar a sentença de morte…

                O Mestre ouviu a lona narrativa em silêncio e, porque observasse a atitude expectante dos aprendizes, neles fixou o olhar percuciente e doce falou:

                – Se a prática do mal exige tanta inteligência e serviços de um homem, calculemos a nossa necessidade de compreensão, devotamento e perseverança no sacrifício que nos reclama a execução do verdadeiro bem.

                Logo após, afastou-se pensativo, enquanto os dois jovens companheiros se entreolhavam, surpresos, sem saberem que replicar.

Livro LUZ ACIMA. Emmanuel (Espírito). Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Federação Espírita Brasileira – FEB. Brasília – DF. 11ª Ed. 2013.

Manoel Ataídes Pinheiro de Souza – CEAC Guaraniaçu – PR. [email protected].            

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