Tem uma coisa curiosa acontecendo nas redes sociais agora. No meio de tanto conteúdo perfeito, produzido, filtrado e roteirizado, o que mais engaja é o vídeo tremido gravado no carro, com olho vermelho, depois de um dia difícil. A pessoa falando sem script, sem luz boa, sem música de fundo. Só ela e o que está sentindo.
Não é coincidência. É sintoma.
A gente passou anos consumindo perfeição e saindo de lá se sentindo menor. O corpo perfeito, a casa arrumada, o relacionamento que parece saído de filme, o sucesso que chegou fácil e alegre. E foi adoecendo em silêncio, achando que o problema era só seu — que todo mundo havia descoberto um jeito de viver que você ainda não encontrou.
Agora o pêndulo voltou. As pessoas estão com fome de real. De imperfeito. De humano.
A psicologia chama isso de necessidade de pertencimento e validação social — algo que Carl Rogers já descrevia como central para a saúde emocional: a experiência de ser visto e aceito por quem você realmente é, não pela versão editada que você apresenta ao mundo. Quando essa necessidade não é atendida, a gente se sente profundamente só, mesmo cercado de likes e seguidores.
O problema é que muita gente confundiu exposição com conexão. Postar é fácil. Se mostrar de verdade — com as dúvidas, os medos, as contradições — é outra história. Isso exige algo que a tela não oferece sozinha: vulnerabilidade.
Brené Brown passou anos pesquisando isso e chegou a uma conclusão incômoda: a vulnerabilidade não é fraqueza. É o único caminho para a conexão genuína. E conexão genuína é o que o ser humano mais precisa para se sentir inteiro.
Então, quando você sente aquele cansaço estranho depois de horas nas redes, quando termina uma “sessão de scroll” mais vazio do que entrou — talvez não seja vício em tela. Talvez seja fome. Fome de uma conversa onde alguém te olhe nos olhos. De um abraço que não precise de legenda. De uma amizade que aguente o seu lado menos fotogênico.
A pergunta que fica não é “quanto tempo você passa no celular”. É: quanto tempo você passa sendo você de verdade, com alguém que te aguenta inteiro?
Essa é a conexão que nenhum algoritmo vai conseguir entregar.
Um abraço carinhoso,
Nezia
Psicóloga
Até a próxima semana ✦



