A necessária consciência de classe

Osnélio Vailati – professor da rede estadual, especialista em Metodologia do Ensino de Geografia; Realidade Brasileira; Geopolítica e Relações Internacionais

Enquanto refletia sobre que tema abordar neste espaço, ouvi minha esposa ao telefone e o conteúdo da fala me chamou a atenção, aproximei-me e escutei em silêncio. Concluída a ligação a inquiri para entender o contexto. Ela falava com um operador de telemarketing de e-commerce que a aconselhava a abrir uma reclamação pela demora da entrega dos produtos pela estatal Correios. Ela se recusou a fazer o que lhe fora sugerido e disse que os funcionários dos Correios tinham direito a fazer greve e que ela os apoiava em suas reivindicações. Disse ainda que não via problema na demora dos produtos, afinal era por uma boa causa. Digo a você que fiquei com muito orgulho dela. Muito li que os opostos se atraem, em nosso caso, foi justamente o inverso. A convergência na forma de pensar e de ideais nos aproximaram e nos mantêm unidos, afinal, inteligência e bom senso são fundamentais e nisso ela me supera.

            Ela é da área de exatas, suas leituras visam a história da ciência,  da física, da matemática, etc., ou seja, não tem o hábito de ler autores marxistas, mesmo assim, lembrei o quanto sua atitude parecia atender ao clamado de Karl Marx (1818-1883) em “O Manifesto Comunista” quando dizia: “Trabalhadores do mundo, uni-vos” ou ainda, os ensinamentos de Antonio Gramsci (1891-1937) quando em suas obras professorava sobre a necessidade de formar o intelectual orgânico na figura do trabalhador capaz de ser dirigente e, de compreender e ensinar que independentemente da função exercida (gari, professor ou médico) a classe trabalhadora é una e nela seus integrantes devem ser solidários e cooperativos. O que muito atrapalha para tal é a falta de consciência de classe de grande parcela da classe trabalhadora, problema muito antigo, afinal, no período escravocrata haviam negros no papel de feitores de escravos e de capitães do mato. Havia ainda quem fosse contra o fim da escravidão, apesar de não possuir terras e ser pobre. Enfim, consciência de classe é como disse, um problema crônico do país, que apesar de ser um dos mais desiguais do mundo elege periodicamente a bancada do Congresso Nacional cuja maioria é formada por latifundiários e milionários que garantem com seu trabalho no Poder Legislativo que nada mude. A escravidão, legalmente, não mais existe, porém, persiste no ranço de uma “elite do atraso” como assim a denominou o sociólogo Jessé Souza.

            Em nossa sociedade “do atraso” abundam fontes de “ruídos” travestidos de informação e fake news se proliferam como pragas e, em meio a esse caos midiático, a forte alienação e a débil capacidade de interpretação de texto constituem praticamente nós górdios na formação intelectual do brasileiro médio. Seria a falta de consciência de classe de grande parcela da classe trabalhadora um mal irremediável? Penso que não, porém, assim como para curar uma pessoa do uso de substâncias tóxicas é necessária sua forte disposição em enfrentar o problema, não se adquire consciência de classe sem reflexão crítica seja sobre a leitura que se faz ou a própria vivência. Ler e viver, em si, não tornam as pessoas críticas, mas, refletir profundamente sobre o que se lê e o que se vive, sim. O atual sistema educacional sofre consequências diretas e indiretas de problemas estruturais de nossa sociedade e vive uma crise permanente. Darcy Ribeiro (1922-1997) já alertava que “a crise na educação nunca acaba porque não se trata de uma crise, mas, de um projeto.” Há no sistema educacional brasileiro uma doutrinação reversa e irrefletida, a qual, ampliada pela grande mídia, normaliza a injustiça social por meio do pseudo-discurso da meritocracia eternizando e aprofundando a divisão da sociedade em Casa Grande (privilegiados) e senzala (trabalhadores espoliados). Os poderosos odeiam  livros e professores porque ensinam a pensar. Na sociedade há uma escolha que todo indivíduo precisa fazer: pensar ou ser pensado. Muitos não pensam. Quem pensa, incomoda. Penso que, como articulista e professor, me cabe entregar às pessoas com quem me relaciono a chave que abre as algemas do pensar, há quem a utilize para se libertar. Há quem a jogue fora, praguejando. Encerro com uma frase emblemática da ativista estadunidense Harriet Thubman (1822-1913) “libertei mil escravos. Poderia ter libertado outros mil, se eles soubessem que eram escravos”!