Brasil: Nunca mais

No dia em que escrevo estas linhas comemora-se a passagem de 100 anos do nascimento do frade franciscano, cardeal e

No dia em que escrevo estas linhas comemora-se a passagem de 100 anos do nascimento do frade franciscano, cardeal e escritor brasileiro Dom Paulo Evaristo Arns (14.09.1921 – 14.12.2016) que conquistou legiões de simpatizantes por seu enorme carisma, fé inquebrantável em Deus e incansável promoção dos Direitos Humanos. Durante o exercício de seu ofício religioso ia ao encontro das pessoas em condição de vulnerabilidade social (os excluídos da dignidade humana) que Arns, sabia ser o resultado de injustiça social e não de uma suposta meritocracia. Dom Paulo afirmava que “A paz é caminhada comum sem que ninguém fique marginalizado”. Intransigente defensor dos Direitos Humanos, D. Paulo Evaristo Arns conjuntamente com o Pastor Presbiteriano Jaime Wright e o Rabino Henry Sobel estiveram à frente do projeto (Brasil: Nunca mais) que visava investigar, esclarecer, documentar e denunciar para o mundo os crimes de tortura praticados pela ditadura civil-militar (1964 – 1985).

            É importante frisar que o último período ditatorial brasileiro teve o apoio da elite econômica brasileira (empresários e latifundiários) e mesmo de parte dos religiosos (de ofício ou fiéis). Frequentar a Igreja, mostrar-se perante a sociedade como um religioso fervoroso não é prova de fé cristã, menos ainda de possuir bom caráter, afinal, Hitler também era um assíduo frequentador da Igreja. O tempo passou, com ele a escravidão e as ditaduras, porém, o mal permanece enraizado nos corações e mentes da elite econômica e da pseudo-elite (do capital cultural) que é a classe média, ambas apoiam pretensos ditadores e projetos de ditaduras. O livro “Brasil: Nunca mais” foi lançado em 1986 (logo após o fim da ditadura) e é fato raro encontrar sua versão física à venda, no entanto, ele está disponível em formato PDF na Internet. Na época de seu lançamento ele figurou entre os dez mais vendidos por 91 semanas consecutivas e teve quase 50 edições. No projeto foram colhidos mais de quinze mil depoimentos, fotografias, filmagens e toda a documentação vai a mais de um milhão de páginas. Os números reais quanto às vítimas da ditadura militar talvez jamais venham a ser conhecidos e superam muito o que foi amostrado pelo referido projeto.

            Eu adquiri e li o livro quando fazia universidade (há trinta anos) e recentemente o coloquei numa lista dos dez livros que mais me impactaram. A obra está fortemente documentada, com as fontes devidamente citadas. O texto foi redigido por Frei Betto e Ricardo Kotscho. Trata-se de um resumo que equivale a cerca de 5% do material colhido pelo projeto. A obra é dividida em seis partes intituladas: 1. Castigo cruel, humano e degradante; 2. O sistema repressivo; 3. Repressão contra tudo e contra todos; 4. Subversão do direito; 5. Regime marcado por marcas da tortura; 6. Os limites extremos da tortura. O texto traz de forma nua e crua a desumanidade do regime e dos torturadores. Explica o modus operandi dos interrogadores/torturadores para obter confissões. Há a descrição das técnicas de tortura empregadas em homens, mulheres e, pasmem, até em mulheres grávidas e crianças (filhas de presos políticos para quebrar a resistência destes). Os depoimentos falam da aplicação da droga Pentathotal conhecido como soro da verdade. Trata-se de uma droga que quebra a resistência da vítima que confessa qualquer coisa a que for induzida. Na obra a descrição das técnicas de tortura certamente impactarão as mentes de pessoas dotadas do espírito de humanidade.

            O projeto e o livro foram desenvolvidos para evitar que documentos fossem destruídos como ocorreu com aqueles referentes à escravidão destruídos por ordem de Ruy Barbosa e aos crimes da ditadura de Getúlio Vargas (por ordem deste). O objetivo da publicação do livro era de tornar público o conhecimento acerca do nefasto período vivido no país e conscientizar a população para que ditaduras e torturas jamais voltassem a ocorrer no país. O último dia Sete de Setembro (2021) mostrou que tal como Bertolt Brecht afirmou “a cadela do fascismo está sempre no cio” e que os “cidadãos de bem/cristãos” de hoje novamente condenariam Jesus à tortura e à morte! Obrigado Dom Paulo Evaristo Arns por sua humanidade e sobretudo por sua coragem!

Sugestão de boa leitura:

Título: Brasil: Nunca mais

Autor: D. Paulo Evaristo Arns et al.Editora: Vozes, 1991, 26ª edição,312 pág

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