Comuna de Paris 150

Há 150 anos, mais especificamente entre os dias 18 de março a 28 de maio, teve lugar em Paris, a

Há 150 anos, mais especificamente entre os dias 18 de março a 28 de maio, teve lugar em Paris, a primeira experiência de um governo formado pela classe trabalhadora. Naquele distante ano de 1871, ainda sob os reflexos da Revolução Francesa (1789-1799) que implodiu a monarquia absolutista ao destronar Luis XVI no ano de 1792 irradiando seus efeitos além da França, pois, outros monarcas absolutistas abriram mão de parte do seu poder para preservar seus tronos e cabeças. A Revolução Francesa foi de tal forma importante que ela marca o fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, pois, enterrou o absolutismo e adaptou as nações para o capitalismo moderno. A Comuna de Paris de 1871 apesar de sua breve existência (72 dias) constitui não apenas um marco histórico, mas, um símbolo de resistência e de fortificação da utopia de uma sociedade governada pelo povo e para o povo.

            A França vivia uma turbulência política e encontrava-se em plena Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) resultante da disputa destas nações que tinham grandes ambições geopolíticas, ou seja, a obtenção da hegemonia na Europa Continental. A Prússia (atual Alemanha) demonstrou superioridade no campo de batalha. O Imperador Napoleão III da França foi capturado pela Prússia e, dessa forma, a Terceira República foi então proclamada na França e Louis Adolph Thiers (1797-1877) se tornou o presidente. O interior da França formava a maioria da população e constituía um eleitorado conservador. Na capital Paris, a classe trabalhadora tinha no operariado, a sua ponta de lança. O nome comuna se refere à comarca ou região de Paris e, não ao comunismo, embora tenha sido a primeira experiência da classe trabalhadora à frente do Poder. A Prússia, arrasadora avançou sobre a França, a classe trabalhadora se organizou e montou barricadas para defender Paris. A burguesia fugiu da capital, logo, também a Assembleia Nacional se transferiu para Versalhes. A elite e a parcela conservadora da população não gostaram de ver a classe trabalhadora armada, mesmo que fosse com o intuito de defender Paris e solicitou ao governo Thiers que a desarmasse. A burguesia viu no operariado armado uma ameaça ainda maior que a Prússia ocupando a França. Os soldados enviados para desarmar a Guarda Nacional (operários armados) foram convencidos a ficar do lado do povo e prenderam seus comandantes. O presidente Thiers fugiu para Versalhes. Os revolucionários de Paris não tinham a intenção de conquistar o restante do território francês, embora estimulassem que cada comarca ou distrito tomasse o poder local com o objetivo futuro de fazer da França uma Federação de Comunas.

            As eleições levadas a cabo pelos revolucionários levaram ao poder trabalhadores de vários segmentos, os quais não constituíam uma homogeneidade ideológica. É um engano atribuir a Karl Marx (1818-1883) grande influência sobre os desdobramentos da Comuna de Paris. Os revolucionários em sua maioria seguiam os ensinamentos de autores ideologicamente anarquistas. Karl Marx acompanhou os acontecimentos de Paris e, mais tarde chegou a escrever a obra “A Guerra Civil na França” em que fez uma análise crítica dos acontecimentos apontando os acertos e erros desta. Houve avanços notáveis tais como: Instituição do Estado laico; o trabalho noturno foi abolido; as oficinas foram reabertas e geridas na forma de cooperativas de trabalhadores; as casas vazias abandonadas pela burguesia foram concedidas para habitação da população sem moradia; foi estabelecido o ensino universal gratuito e laico; os descontos salariais foram abolidos; os sindicatos foram  legalizados; nas fábricas foi estabelecido o sistema de autogestão; o salário dos professores foram duplicados; Foi estabelecido que  os trabalhadores que exerciam cargos políticos receberiam salários iguais aos dos trabalhadores comuns. Visando acabar com as forças repressivas sempre utilizadas pela burguesia contra a população, o Exército e a polícia foram abolidos.

            A Comuna não atacou Versalhes quando isso lhe era amplamente favorável e nem se apossou das reservas do Banco Central  da França para se fortalecer, estes foram por Marx considerados erros capitais. A reação de Versalhes veio com um Tratado de Paz com a Prússia que, apesar de desvantajoso para a França, se mostrou de grande valia para a burguesia representada pelo governo Thiers, pois, a Prússia liberou os soldados franceses presos, juntamente com o retorno daqueles estacionados na frente de batalha  engrossando as fileiras no planejado ataque à Comuna de Paris. A Comuna resistiu bravamente, mas, a desproporção de forças era evidente. O governo Thiers avançou rapidamente sobre Paris promovendo um grande derramamento de sangue e causando  cerca de trinta mil mortes de comunards (como eram chamados os revolucionários). Após o fim da batalha, o banho de sangue não acabou de imediato, prosseguiram as execuções “a sangue frio”, prisões e exílios forçados de trabalhadores que ousaram sonhar. Marx ao se referir aos comunards afirmou que eles agiram como “assaltantes do céu”, ou seja, tentaram aquilo que era claramente impossível. Mais tarde, León Trotski (1879-1940) o corrigiu, afirmando: “As revoluções são impossíveis até que se tornam inevitáveis”. A Comuna de Paris foi breve, mas, seus ensinamentos foram utilizados em 1917 na Rússia e, se perpetuam na história. Com seu exemplo, os comunards ensinaram que as utopias não devem jamais ser abandonadas.

Sugestão de boa leitura:

Obra: Comuna de Paris 150.

Autor: Vijay Prashad et al.

Editora: Expressão Popular, 1ª edição, 2021, 141 p.

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