De mochila na China

Neste ano de 2020 (sob a pandemia) muita gente, tal como este escriba, está sedento por viajar, mas, não é

Neste ano de 2020 (sob a pandemia) muita gente, tal como este escriba, está sedento por viajar, mas, não é seguro e precisamos ter responsabilidade individual e coletiva. Uma forma segura de ter contato com outros lugares e culturas é viajar nas páginas de livros sobre viagens. Esta é a proposta do livro “De mochila na China” de Savannah Grace. A obra relata a primeira parte de uma viagem (China e Mongólia) a vários países. Viagens não era algo novo para a família que recebia em sua casa estudantes de outros países em programas de intercâmbio e possuía uma agência de viagens. Na separação de seus pais, a agência ficou para o pai, apesar de que a mãe sempre fora o cérebro a administrar a empresa. Após a separação, Maggie (a mãe) decidiu fazer um ano sabático (excursionando por vários países) levando os filhos Savannah, Breanna (Bree) e Ammon, o mais velho (25 anos), experiente em viagens e que seria o guia e contador incumbido da meta de gastar a média de US$ 5/dia e de impor freios aos impulsos consumistas da família.
    Savannah, a filha caçula  (14 anos) reagiu mal ao comunicado. Ela adorava o conforto de sua vida numa família da classe média canadense e, para o desespero dela, a viagem duraria um ano (prolongou-se por quatro anos) e, com isso perderia o convívio com suas amigas e colegas de escola e, também o contato com o garoto que estava paquerando. A adolescente fracassou em demover a mãe da “ideia maluca” e para seu desespero, era a única a pensar assim. Alegou o prejuízo da perda do ano escolar, mas, a mãe tentou lhe convencer que ela era jovem, retomaria os estudos depois e, que a viagem lhe traria grande enriquecimento cultural. Maggie vendeu seus pertences e doou os pets da família, inclusive o cãozinho de Savannah, apesar de seus protestos. Iam viajar como mochileiros, uma forma barata de viajar, porém, abdicando do conforto que a adolescente prezava tanto. 
    Savannah não aceitou ter sua formação escolar atrasada em um ano e, aderiu a um plano de Ensino à Distância, mas, ao longo da viagem, seja pela falta de tempo e/ou de Internet razoável, não conseguiu fazer os trabalhos exigidos e, para aliviar o peso de sua mochila, jogou seus materiais escolares na lixeira. Também suas amigas a desapontaram, pois, não lhe enviavam e-mails regularmente como pensou que fariam e tristemente constatou que em seu país, mesmo sem ela, a vida seguia seu ritmo normal. A viagem de roteiro planejado, porém, não engessado, permitia alterações e improvisações, dessa forma, surpresas e decepções quanto a lugares e hospedagens ocorriam frequentemente. Savannah que não apreciava a leitura se revoltou quando descobriu que sua pesada mochila tinha vários livros colocados por sua mãe para a leitura da família. Com o tempo e alguma relutância começou a gostar de ler e apaixonou-se pelo romance “E o vento levou” e por “Rhett Buttler”. 
    Savannah fez juntamente com a família uma imersão na cultura dos países visitados, conhecendo sua geografia e história e se viu obrigada a utilizar banheiros públicos imundos e a fazer refeições com pratos esquisitos e sem as condições de higiene que considerava adequadas. As mulheres da família trocavam camisetas entre si para ter mais opções de vestuário (cada uma levava apenas três). Durante a viagem, Savannah foi amadurecendo e, ao ver pessoas humildes e felizes com tão pouco, começa a se questionar sobre porque precisamos de tanto para sermos felizes. A família passa por situações perigosas, ora perdidos e quase sem combustível no deserto, ora com a pane do veículo no meio do nada. A autora, hoje aos 30 anos (casada e mãe), reside na Holanda e trabalha como escritora, influenciadora digital e administradora de acomodações para o Airbnb. Viajante experiente (visitou mais de 110 países), planeja conhecer todos os países do mundo. A adolescente preconceituosa quanto a outras culturas (e países pobres), tornou-se uma mulher com mente aberta para o mundo e suas culturas. A autora tem um blog intitulado “sihpromatum”, palavra chinesa que significa “benção que inicialmente parecia uma maldição” e que traduz a experiência pela qual passou. Fica a dica do blog e do livro.

Sugestão de boa leitura:
Título: De mochila na china.
Autor: Savannah Grace.
Editora: Duna Dueto, 2018, 443 p.
Preço: R$36,60.