Lula, o corrupto

Por Rita Almeida – Psicóloga, mestra e doutoranda em educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)   Acabei

Por Rita Almeida – Psicóloga, mestra e doutoranda em educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)

 

Acabei de visitar uma página do facebook onde comparavam a popularidade e a comoção em torno de Lula, com a do movimento nazista em torno de Hitler. Não é novidade que grandes líderes, sejam eles políticos ou religiosos, arrebatem multidões em seu entorno. De Jesus Cristo a Gandhi, de Stalin a Mandela, de Zumbi a Lampião, de Cleópatra a Anita Garibaldi, todos capazes de seduzir muitas mulheres e homens em torno de si, com maior ou menor devoção. A paixão por seguir grandes líderes é do humano, uma das formas de lidarmos com nosso mal-estar de existir, já dizia Freud. Ter um mestre que nos oriente e nos diga o que fazer, resgata em todos nós um certo lugar infantil, que nos conforta e apazigua, especialmente em tempos difíceis. Portanto, não há pós-modernidade ou “avanço cultural” que nos livre desse encantamento que grandes líderes são capazes de nos provocar.

Todavia, é um erro pensar que os líderes simplesmente nos arrastam para seus próprios pensamentos e ideias, ao contrário, o mais correto é dizer que eles catalisam para si aquilo que é o desejo de uma coletividade. O líder não faz seus seguidores, ele é muito mais inventado e construído por eles. Lula esteve corretíssimo em seu discurso antes da prisão ao dizer que é um catalisador de sonhos, uma ideia coletiva. Grandes líderes possuem esse carisma, essa capacidade de se abrir ao desejo de uma coletividade, e, muitas vezes, abrindo mão do seu próprio. E Lula soube e sabe fazer isso de uma maneira extraordinária. Lula não fala para nós, ele fala através de nós, ou pelo menos através de nós que, nas últimas décadas, desejamos mudar o rumo da história do Brasil.

Podem tecer sobre Lula todas as críticas e acusações, mas, ninguém em sã consciência, ou que não esteja movido pelo preconceito e pelo ódio, pode negar que, ascender um nordestino, retirante, faminto e semi-analfabeto à presidência do maior país da América Latina, não é uma subversão qualquer. Lula representa uma virada de mesa impensável, a encarnação das vozes que ficaram historicamente excluídas das decisões deste País. Lula é o grande apanhador da ideia de uma nação mais justa para os que só podiam, até então, ter como destino, a servidão a uma elite egoísta, esnobe, patrimonialista e escravocrata. E é necessária muita ignorância ou desonestidade intelectual para afirmar que o governo Lula não se dedicou a ser porta-voz desses que o inventaram, ainda que isso tenha lhe custado negociar com essa mesma elite, que jamais aceitou perder seus privilégios. Lula foi acusado de negociar com os poderosos ao invés de desbancá-los, mas, se foi um negociador que escolhemos, o que poderíamos esperar? Nesse sentido, comparar Lula com Hitler é desonesto, estúpido e imoral, afinal, o que o movimento nazista queria dizer por meio de Hitler é absurdamente diverso do que o povo brasileiro pretendeu e pretende dizer através de Lula. Lula ainda é um líder capaz de catalisar os sonhos de uma geração que pensou num Brasil que pudesse se parecer mais com sua maioria.

Dizem que Lula é o maior corrupto da nação. Eu concordo que seja. Lula co-rompeu toda a estrutura de poder do Brasil. Lula co-rompeu a linha de continuidade de mais de 500 anos de história e co-rompeu seu próprio destino que seria a invisibilidade, a servidão e o silêncio. E foi exatamente por ter co-rompido o que seria o estado natural das coisas, é que ele precisou ser barrado da forma que foi. Porque, quem ainda não está certo de que sua condenação, sendo justa ou não, só aconteceu sob um regime de exceção está completamente cego. Ou não quer ver porque se acha parte da elite que precisa desbancá-lo (o que corresponderia a menos de 10% da população), ou porque não suporta se ver no espelho.

#LulaLivre