Tenho o hábito de assistir séries, mas neste recesso escolar resolvi mudar: nada de episódios que, em sua ordem cronológica, me lembram a rigidez com que nós, professores, ficamos presos ao relógio. Optei por filmes aleatórios. Como assisto poucos, é fácil encontrar títulos inéditos.
Foi assim que deparei com O diário de Bridget Jones (2001). Em meu imaginário, tratava-se de uma repórter investigativa que desvendara uma grande rede de corrupção e, após ser assassinada, seu diário revelava os criminosos. Quem assistiu ao filme sabe que não se trata de nada disso. Esse episódio banal me fez lembrar de Karl Marx: “Se toda a essência coincidisse com a aparência, a ciência seria desnecessária.” Se as coisas fossem o que aparentam, não precisaríamos investigar para descobrir seu real significado.
Ocorreu-me um caso parecido. Um companheiro de visão de mundo confessou que não lia tudo o que eu postava, mas repostava por me conhecer. Apontei-lhe o equívoco: já encontrei publicações de companheiros que contrariam a própria ideologia que defendem. Tais contradições nascem de manchetes cujo conteúdo não corresponde ao título. Quantos se limitam a comentar manchetes sem ler o conteúdo integral?
Essa reflexão não é nova. Em 2010, publiquei “A ilusão de descortinar o mundo real”: “A visão de mundo das pessoas é míope. Ver a essência dos fenômenos exige estudo, observação, reflexão. Pensar é tarefa árdua, já dizia Einstein, e talvez por isso tão poucos se dediquem a ela. Difunde-se, assim, o discurso de que se deve aceitar o mundo como ele aparenta ser.”
Há dias, um internauta postou que dos professores “muito se deve exigir, pois as consequências de seu trabalho se propagam por décadas”. Concordo. Mas complemento: que se dê as condições necessárias aos mestres. E pouco se discute o peso da imprensa que omite/manipula informações, ou dos internautas que propagam fake news, minando a democracia, que precisa da informação verdadeira para subsistir.
O que quero dizer é que a hipocrisia reina em muitos discursos. E poucos passariam pelo crivo de seu próprio pensar. Se Bridget Jones me ensinou algo, além de boas risadas, foi isto: julgar um filme, uma notícia ou uma pessoa pela capa é um risco que, num mundo saturado de informações, já não podemos mais correr.



