Sobre condecorações em tempos de exceção

Há alguns dias encontrava-me em uma grande livraria na capital de nosso estado, quando solicitei o auxílio de uma atendente

Há alguns dias encontrava-me em uma grande livraria na capital de nosso estado, quando solicitei o auxílio de uma atendente afirmando-lhe estar procurando um livro cujo autor, Raduan Nassar, foi duramente criticado pelo Ministro da Cultura Roberto Freire (PPS), o que me dava razões de sobra para acreditar que sua obra era excelente. Freire demonstra nada entender do conteúdo de sua pasta, menos ainda de socialismo, democracia e ética na política, uma vez que se uniu ao grupo que representa o que há de maior atraso e indecência na política brasileira, junto ao qual promoveu um estupro à jovem democracia brasileira ao levar a cabo o golpe de Estado de 2016. Roberto Freire que se acostumou a agir como um coronel em sua carreira política, de forma premeditada, e quebrando o protocolo, pediu para falar após o discurso do premiado escritor que acusou o golpe patrocinado no Brasil. Em sua fala, Freire agiu com profunda descompostura pensando que o microfone em suas mãos lhe dava o poder de calar a platéia e colocar Nassar em seu lugar. Raduan, educadamente assistiu o Ministro mostrar a sua pequenez de espírito e a sua pouca cultura. Porém, a platéia reagiu em defesa do homenageado e da necessidade de preservar aquele momento, afinal, o prêmio Camões era dos países de língua portuguesa e não exclusivo do Brasil do golpe, e Raduan Nassar era o homenageado. O Ministro golpista da Cultura Roberto Freire foi calado pela platéia, e não conseguiu terminar seu discurso de ódio, mas, teve tempo suficiente para envergonhar o país aos olhos do mundo. No entanto, Raduan deve ter conquistado inúmeros novos leitores, como eu, que saí da livraria com sua obra mais conhecida internacionalmente: Lavoura arcaica.

Também há alguns dias o presidente golpista Michel Temer (PMDB) que tem imposto ao país uma política econômica e social promotora do retrocesso por meio do projeto ponte para o futuro, mas, que deveria se chamar ponte para o atraso fez uma cerimônia de entrega de condecorações. Na ocasião, Beto Richa (PSDB), governador do Paraná, cuja imagem sofre o inevitável desgaste resultante das investigações promovidas pelo Grupo de Atuação Especial de combate ao Crime Organizado (GAECO) contra a corrupção pela operação Publicano (acerca da corrupção no âmbito da Receita Estadual) e a Operação Quadro Negro (concernente à corrupção em obras públicas na construção de prédios escolares), sem falar que foi delatado na operação Lava-Jato com dois apelidos brigão e piloto, foi um dos homenageados com a comenda Ordem de Rio Branco (pobre José Maria da Silva Paranhos Júnior!). Beto Richa é o governador que em 29 de Abril de 2015, por ação e/ou omissão, patrocinou um dos mais tristes e lamentáveis episódios da história nacional, ocasião em que educadores foram massacrados num ataque brutal das forças policiais quando protestavam e tentavam impedir que o governo lhes retirasse direitos e também se apoderasse de seu bilionário fundo de aposentadoria. No episódio, centenas de trabalhadores da educação sofreram lesões, porém, a agressão moral, dada a humilhação imposta, atingiu a todos os profissionais da Educação do estado, do país e do mundo.

No Brasil do golpe, faz todo sentido que Temer condecore aliados como Beto Richa. É que homenagear quem de fato merece sem olhar suas cores ideológicas pode ser um tiro no pé, afinal, homenageados têm direito a aparecer ante os holofotes das redes de TV e pronunciar seu breve discurso, que apesar de breve, pode ser interminável, além de indigesto para a plutocracia golpista. Beto Richa perante as câmeras de TV se gaba de sua excelente gestão, mas, esta não condiz com aquela da vida real, cujo ajuste fiscal foi realizado à custa do sacrifício do contribuinte paranaense que teve sua carga de imposto fortemente aumentada (ICMS, IPVA, etc.), e, também do funcionário público estadual cujo fundo previdenciário que visa garantir as aposentadorias, tem perdas estimadas em cerca de 3,5 bilhões com as retiradas feitas pelo executivo estadual. Num futuro não muito distante, o fundo irá se tornar insolvente. E o Paraná, falido, não terá como pagar a folha de pagamento do pessoal da ativa, a folha de aposentados, as parcelas da dívida pública e da realização de obras públicas, tal como hoje ocorre no Rio Grande do Sul. Beto Richa joga o problema para os futuros gestores.

O eterno e saudoso John Lennon afirmou: Não posso acreditar que me condecorem. Sempre pensei que para ser condecorado era necessário dirigir tanques e ganhar guerras. Parafraseando Lennon, afirmo que faz sentido, Temer condecorar seus semelhantes, pois, em seu governo de exceção, faz jus a condecorações quem usa rolos compressores e vence batalhas passando por cima das vítimas que defendem seus direitos trabalhistas, civis e constitucionais, a democracia e a lisura na vida pública!