Todo dia

Nestes tristes e obscuros tempos que vivemos, nunca antes a palavra empatia foi tão citada como a necessidade mais premente

Nestes tristes e obscuros tempos que vivemos, nunca antes a palavra empatia foi tão citada como a necessidade mais premente na sociedade brasileira. Além de todos os problemas que perfazem o cotidiano da população de um dos países mais injustos do mundo no que concerne à distribuição de renda, ainda temos o agravante da pandemia de Covid 19. Nunca a empatia foi tão necessária como agora. Em nosso país, não foi por mero acaso que o discurso do ódio elegeu seu atual presidente, mas, por evidenciar nossas raízes históricas que remontam ao período escravocrata. O ano de 1888 ficou para trás no tempo, porém, o preconceito e a desigualdade de oportunidades foram cuidadosamente acondicionados na bagagem a ser enviada para o futuro e, aos dias atuais chegaram, pois, ao longo da história, sempre que algum governante ou grupo político tentou mudar nossa triste sina, teve a oposição das elites no afã de proteger seus injustos privilégios alegando de forma falsa e perversa serem frutos de seus  supostos méritos.

É a população negra (juntamente com a indígena), a mais pobre e discriminada deste país. Aos preconceitos étnicos, se somam vários outros contra as pessoas que ousam pensar e/ou agir de forma diferenciada daquela considerada padrão, portanto aceitável para a mentalidade alienada de parcela expressiva da população. Escrevo estas linhas, refletindo sobre o chão onde meus pés pisam, mas, sei que o que escrevo, também se aplica de forma parcial, a uma importante parcela da humanidade. Afinal, esta, em todos os países, deu tristes mostras ao longo da história, de sua forma doentia/perversa de pensar e, muitas vezes de conduzir a sociedade. O genocídio contra o povo judeu, mas, também contra os povos originários (indígenas) do continente americano, do povo negro nas colônias implantadas no continente africano e além-mar são mostras disso.

A palavra empatia talvez seja desconhecida de muitas pessoas, mas, não seu significado, afinal, nossos avós já diziam que “uma pessoa não pode julgar a outra, sem colocar-se no lugar dela”. Este é o significado de empatia, que numa busca ao dicionário, encontra-se assim definida: 1. Psicol. Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa. 2. Psicol. Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem. 3, Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura. Também há a referência a três características da empatia: 1. Cognitiva: Entender o ponto de vista do outro; 2. Compartilhar os sentimentos do outro; 3. Compassiva: Perceber que o outro precisa de ajuda e colocar-se à disposição.

 Neste sentido, o escritor estadunidense David Levithan (1972 – ) publicou uma obra com uma premissa original. No livro “todo dia”, a personagem “A” não tem um nome definido, sequer um gênero definido, ou ainda, um corpo definido. Todo dia “A” acorda num corpo diferente, independentemente de sua condição de gênero, etnia, classe social, saúde, etc. Penso que a personagem “A” pode ser entendida como uma entidade ou, uma alma/espírito, nessa condição, sente as alegrias e as tristezas inerentes a cada pessoa cujo corpo ocupa durante 24 horas e, ao dormir acorda em outro corpo. “A” nunca teve um corpo próprio ou uma família própria e ao ocupar os corpos de diferentes indivíduos, pode entender as pessoas de uma forma não possível aos indivíduos comuns, pois, é capaz de verdadeiramente se colocar no lugar destes. Afinal, ter empatia com os negros, os indígenas, os pobres, doentes (depressivos), os homossexuais, os que sofrem perseguição ideológica, étnica ou religiosa, etc. é um esforço de abstração e, apesar das boas intenções, jamais sentiremos com a intensidade devida o que é “estar na pele do outro”. David Levithan escreveu esta obra primeva, com a qual auxilia os leitores na reflexão e na prática da empatia. A obra não é perfeita, o que é perdoável, dada a dificuldade do tema e de como explicar tal poder/dom da personagem “A” que embora “viva” de forma surreal, apenas passa a desejar uma forma de vida comum com direito a um corpo, família e história de vida simples, quando se apaixona por Rhiannon. Esse livro é direcionado às pessoas jovens e/ou de mentalidade aberta e, principalmente, àquelas que têm ou procuram desenvolver a empatia. Se não é o seu caso,  a leitura desse livro pode lhe trazer dissabores.

P.S. A obra foi adaptada para o cinema com o mesmo título. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título da obra: todo dia

Autor: David LevithanEditora/Ano: Galera Record: 2020, 13ª ed.; 279 p.