Uma esperança mais forte que o mar

O livro “Uma esperança mais forte que o mar” de autoria da diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações

O livro “Uma esperança mais forte que o mar” de autoria da diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) Melissa Fleming é uma denúncia para o mundo da trágica situação de milhões de pessoas, cujos países de origem encontram-se em meio a guerras civis, muitas vezes provocadas por potências estrangeiras por meio da guerra híbrida e, até mesmo com a participação direta destas no conflito com tropas militares para a obtenção de ganhos geopolíticos. A autora, por seu ofício ante o ACNUR, viaja a zonas de guerra e campos de refugiados com a intenção de dar voz às milhões de pessoas obrigadas a abandonar seus lares. Melissa colabora com o The New York Times, o The Washington Post,  a CNN e a NPR.

            A obra conta a história de vida da jovem síria Doaa Al Zamel e de sua família e todas as dificuldades resultantes da eclosão da guerra civil síria que faz parte da série de eventos semelhantes que ficaram conhecidas como “Primavera Árabe”. Em tal ocasião, a população saiu às ruas incitada e organizada por lideranças que  por meio das redes sociais tinham como objetivo exigir democracia, liberdade e respeito aos direitos civis. Os protestos, tal como peças de dominó enfileiradas foram se sucedendo no norte da África desde a Tunísia e atingindo países como a Líbia, o Egito e, claro, a Síria (Oriente Médio). O povo, obviamente clamava por direitos inalienáveis, afinal, na região haviam ditadores que se perpetuavam no poder desde o período conhecido como Guerra Fria (1945-1991). Não há que se criticar a justeza da reivindicação popular, mas, há importantes estudos que demonstram que o descontentamento popular foi turbinado a partir do exterior por meio da Internet (redes sociais) por agentes e programas de inteligência artificial de agências de inteligência de potências estrangeiras com uma estratégia de desestabilização política conhecida como guerra híbrida.

            A guerra híbrida é uma modalidade de soft power (poder suave) cada vez mais utilizada por potências como os Estados Unidos da América com o fim de derrubar governantes não alinhados com Washington. O hard power (poder duro) somente é utilizado quando as opções não militares fracassam. Outras opções do soft power são os embargos (econômicos/tecnológicos) e sanções econômicas e o isolamento diplomático. A Síria é alvo de grande interesse geoestratégico por ser um importante aliada da Rússia e do Irã. Derrubar o presidente sírio Bashar Al Assad e colocar um governo palatável aos Estados Unidos, à Europa/França e a Israel, isolando o país persa e enfraquecendo o poder da Rússia no Oriente Médio seria algo maravilhoso para as potências citadas. Além disso, se poderia cruzar o país com gasodutos para a Europa reduzindo a dependência do gás russo. Enfim, não faltam motivos para os Estados Unidos e a Europa com seus “ideais altruístas” desejarem levar a democracia para a Síria.

            É dentro dessa trama geopolítica que ocorre a história de Doaa Al Zamel, cuja qualidade de vida da família despenca conforme a guerra civil síria se desenrola. O governo sírio faz forte repressão à população que adere aos protestos e grupos armados locais combatem as tropas governamentais. Aproveitando-se da instabilidade política síria, o grupo terrorista Estado Islâmico também entra no conflito com o objetivo de conquistar o país ou parte dele. Os bombardeios realizados pelas potências envolvidas (EUA, França e Rússia) e os confrontos nas ruas por diferentes facções e a destruição da infra-estrutura do país, leva a família de Doaa a fugir para o Egito, onde inicialmente foram bem recebidos, porém, logo passaram a ser hostilizados. Doaa resiste, mas é convencida pela família a tornar-se noiva de Bassem, um jovem sírio (que ganhou as graças da família) por ela apaixonado. Logo ela se vê correspondendo ao rapaz que a convence a ir para a Europa, devido às dificuldades da vida no Egito. Pagam contrabandistas para que os levem à Europa, sendo que várias tentativas são frustradas ainda em terra, nas quais se vêm em perigo, sendo inclusive presos.

             A propaganda de um barco em boas condições é enganosa. Quinhentas pessoas vão empilhadas. Após vários reveses, quando se encontravam a menos de um dia de aportar na Europa, traficantes de outro barco abalroam propositalmente o barco de Doaa causando seu afundamento. Doaa ouviu os traficantes rindo e desejando que os peixes devorassem a carne dos náufragos. Centenas de pessoas morrem afogadas, outras tantas se agarram a bóias e destroços. Doaa sobrevive numa bóia durante quatro dias e quatro noites (em meio a cadáveres estufados) segurando duas bebês (Malek e Masa) cujas mães morreram. Um navio cargueiro japonês faz o salvamento dela, das bebês e de algumas poucas pessoas que sobreviveram levando-os à Grécia. A pequena Malek não sobrevive. Doaa é aceita como refugiada na Suécia (para onde o casal de noivos pretendia se dirigir) e consegue a permissão de levar sua família (pais e irmãs). Doaa que viu seu noivo morrer no mar, diz ter sobrevivido porque dela dependia a vida das bebês. Ela já foi a vários programas de TV nos quais afirma sempre que as pessoas deixam seu país de origem por não ter outra opção. História real, triste e comovente! De grande valia para que as pessoas tenham mais empatia e combatam a xenofobia!

Sugestão de boa leitura:

Título: Uma esperança mais forte que o mar.

Autor: Melissa Fleming.

Editora: Rocco, 2017, 1ª edição,272 pág.

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