Em “O Novo Poder da China”, Ricardo Geromel expõe que, para Pequim, alimentar 20% da população global com terras limitadas é uma questão de sobrevivência. É sob essa ótica que devemos analisar a maciça injeção de capital de corporações estatais chinesas no agronegócio brasileiro. Não se trata de mero comércio, mas de uma estratégia geopolítica na qual o Brasil é, simultaneamente, protagonista e altamente vulnerável.
Os investimentos transcenderam a simples compra de commodities para dominar a espinha dorsal da nossa cadeia produtiva. A gigante estatal COFCO International, por exemplo, atua fortemente na originação, esmagamento de grãos e operações portuárias, figurando hoje entre as maiores tradings exportadoras do país e rivalizando com as maiores multinacionais do setor. No setor de insumos agropecuários, a estatal ChemChina (através da Syngenta) lidera o mercado nacional de defensivos e biotecnologia de sementes. Na infraestrutura, a estatal CCCC (China Communications Construction Company) tem investido pesado em terminais portuários e projetos ferroviários essenciais. Atualmente, a China absorve cerca de 28% das exportações totais brasileiras — e concentra o destino de mais de 70% da nossa soja —, em um comércio agropecuário bilateral que já gera movimentações na casa dos US$ 100 bilhões anuais.
Economicamente, esse fluxo é formidável: financia safras e alivia os gargalos logísticos crônicos do país. Contudo, as implicações para a soberania nacional são alarmantes. Quando uma potência estrangeira passa a controlar não apenas a demanda final, mas a infraestrutura de escoamento e o fornecimento tecnológico, a segurança estratégica entra em xeque. O risco de “reprimarização” econômica se agrava, reduzindo o Brasil a uma vasta fazenda de exportação, enquanto a captura de valor agregado ocorre no exterior.
A maior vulnerabilidade, porém, é a logística. Ter redes de distribuição e portos atrelados aos interesses de corporações que respondem ao Partido Comunista Chinês significa que, num cenário de crise global de abastecimento, as prioridades operacionais em solo brasileiro seriam ditadas pelas necessidades da China, não do Brasil.
*Escrito com o auxílio do Gemini



