Onde a criança mais trabalha?

No Brasil rico, é onde a criança mais trabalha. Sempre se imaginou que a maioria das crianças que trabalham estivesse

No Brasil rico, é onde a criança mais trabalha. Sempre se imaginou que a maioria das crianças que trabalham estivesse nas ruas das grandes cidades ou nas regiões pobres do Nordeste. Uma pesquisa revela que esse contingente é mesmo muito grande, mas não se compara ao número de crianças que ajudam os pais nas pequenas propriedades rurais do Sul do país. Uma em cada três crianças com idade entre 10 e 13 anos da zona rural do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul trabalha todos os dias, numa proporção bem superior a do Nordeste e das cidades. Não se trata aqui de crianças carentes, que moram em favelas, vivem nas ruas e não podem ir à escola. Os pequenos trabalhadores das propriedades familiares do Sul têm família, casa e comida, vão à escola e trabalham muito mais de quarenta horas semanais, segundo outra pesquisa, feita pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul, Emater.

 Por aqui, se vê, que O melhor remédio contra a miséria é o trabalho. Não o trabalho demasiadamente pesado para crianças. Embora o trabalho de menores de 14 anos seja proibido pela Constituição federal, quase 2 milhões de crianças com idade entre 10 e 13 anos trabalham no Brasil. Elas representam 14% da população nessa faixa etária e 3% do total da força trabalhadora do país, estimada em 64,5 milhões de pessoas. Nas cidades, ao contrário do que se imaginava, o contingente de crianças no mercado de trabalho é inexpressivo. Em São Paulo, por exemplo, só 47.000 dos 1,5 milhão de adolescentes trabalham – cerca de 3% do total. Na zona rural da Região Sul, essa taxa sobe para 35,2%, contra 29% no Nordeste e 21% no Sudeste.

 Uma boa explicação para esses números está no distrito de Campo do Meio, em Montenegro, município gaúcho situado a 89 quilômetros de Porto Alegre. Ali, numa propriedade de 20 hectares, Geraldo Derlan, de 40 anos, a mulher, Cloreci Maria, de 38, e as duas filhas – Joseana de 12 anos, e Fabiana de 14 – colhem 3.000 caixas de laranjas e tangerinas por ano. Todos trabalham. A mãe cuida da casa, enquanto o pai e as meninas passam o dia no campo. Geraldo colhe vinte caixas por dia. As filhas, doze caixas cada uma. O trabalho das crianças representa, portanto, mais da metade da produção diária da propriedade. Joseana, a mais nova, também dirige o trator da família.

 Na última semana, o fim das férias escolares no Rio Grande do Sul fez a produção dos Derlan cair em um terço. As duas meninas voltaram a estudar e agora só trabalham meio período. Mesmo assim, a família vive bem. Tem um carro e uma moto, máquina de lavar, freeser, geladeira e uma televisão nova. Aqui, sempre foi assim, conta Geraldo. Meu pai trabalhava na roça quando era criança, eu trabalhei e agora as minhas filhas também trabalham. A ajuda delas é fundamental. Casos como o da família Derlan ajudam a entender melhor as pesquisas do IBGE. O trabalho de menores está longe de ser um produto da crise. Os meninos e as meninas de famílias mais humildes sempre trabalharam. No campo, eles são parte efetiva da força de trabalho familiar, e esse é um hábito que passa de geração em geração, independentemente do que a Constituição Federal diga a respeito do assunto. O que ocorre no Brasil de 1994 é que, depois de uma década de estagnação econômica, o país ficou mais pobre e o que era um traço cultural se tornou um imperativo de sobrevivência. Numa família do Piauí, em que o pai passou os dois últimos anos da seca ganhando meio salário mínimo por mês nas frentes de emergência, o trabalho de uma criança pode representar a existência ou não de um prato de comida sobre a mesa no dia seguinte.

       (Fonte; Veja, Economia e Negócios – edição 1331 de 16/03/1994)