Um porto-barreirense na República Tcheca

Entre agosto de 2019 e março deste ano, o porto-barreirense Diego Moryama fez intercâmbio no leste europeu e conheceu uma cultura que herda traços da influência soviética e que pouco conhece do Brasil

Em agosto de 2019, aos 15 anos, Diego Yuji Granamann Moryama deixou a pacata Porto Barreiro, com seus 3 mil habitantes, e rumou à Europa, para um intercâmbio.

O destino não era o inicialmente pretendido. O jovem almejava conhecer países como Bélgica e Dinamarca, mas acabou precisando optar pela República Tcheca – que ele, até então, nem sabia onde se localizava. Mais de um ano depois, o jovem garante: não foi uma decisão infeliz.

Foi a primeira viagem para o exterior e de avião do garoto. Logo na estreia, um imprevisto. Ao fazer uma escala em Frankfurt, na Alemanha, Diego foi barrado no aeroporto e a Polícia foi chamada. “Eu ainda não tinha o meu visto e precisava entrar na Europa como turista, só que eu não sabia disso. Falei às autoridades que ficaria por lá por um ano e aí foi um problemão. Não soube me explicar direito, perdi o vôo e a Polícia ligou para a embaixada da República Tcheca. Avisei minha mãe e ela disse: ‘é né, fazer o quê’.

Imbróglio resolvido, Diego fixou moradia em Ostrava, uma cidade próxima à Polônia, com cerca de 300 mil habitantes. No município, morou com duas famílias: uma de professores e a outra de empresários.

O jovem deixou o Brasil falando dois idiomas: português e inglês. A expectativa de aprender a língua local, o peculiar tcheco, com algumas letras a mais no alfabeto, enfrentou uma resistência curiosa no início. “Além do russo e do alemão, a maioria das pessoas falava inglês, então, a minha comunicação com as pessoas ficava facilitada e, por ora, não via um impulso que me fizesse aprender o treco. Depois, acabei me habituando ao idioma nativo”.

 Diego Moryama viajou para a Europa e trouxe consigo muitas histórias 

O que os tchecos pensam do Brasil?

E apesar de revelar-se um admirador dos maiores expoentes da cultura brasileira, Diego não joga futebol, não samba e menos ainda pula carnaval. Caro brasileiro em plena leste europeu. “As pessoas mais velhas sempre vinham perguntar sobre o Pelé. Outros, achavam que eu morava à beira de um rio, que andava no meio do mato. Moro no Porto Barreiro, mas não é na Amazônia (risos)”.

E o conhecimento dos conterrâneos da viagem de Diego sobre a “terra-dourada” era de fato limitado, conforme o menino. “Eles não sabiam qual era o nosso idioma. Questionavam: ‘é o espanhol? o inglês? brasileiro?’. Era uma certa ignorância, mas nada pejorativo”. 

História

A República Tcheca é um país independente desde 1993. Em 1989, dissolveu-se da extinta Tchecoslováquia – da qual também a Eslováquia fazia parte. Por cerca de 40 anos, o estado foi administrado sob o sistema socialista, sob influência soviética. Diego atribui à herança histórica traços do comportamento do dia a dia dos tchecos. “As pessoas são mais frias, contidas e formais. Numa festa de aniversário, por exemplo, não existem abraços, apenas um comprimento e aperto de mão. Na escola e na sociedade em geral, eles comemoram o dia que dissolveram-se da Tchecoslováquia. ”, conta.

Adeus antecipado

E, apesar de que, ao que parece negativamente, o Brasil exerce certa influência e repercussão no exterior. Quando de declarações polêmicas do presidente da República, Jair Bolsonaro, os tchecos questionavam Diego: “você viu o que seu presidente disse hoje?”. “Eu vi…”, dizia o garoto.

O intercâmbio deveria chegar ao fim somente em julho, mas a pandemia adiantou o regresso para março. “Não era obrigatório voltar agora, mas como tinha o receio do fechamento dos aeroportos, achei por bem retornar”.

Em relação ao enfrentamento da covid-19, Diego fez comparações que impressionam. “Quando saí de lá, a pandemia havia eclodido na Espanha e na Itália a a Tcheca estava em um cenário estável. O povo é pacífico e não costumam enfrentar crises econômicas, por exemplo. Então, quando houve a instabilidade com a covid-19, eles se assustaram e respeitaram as medidas restritivas ao máximo. O brasileiro, talvez por estar acostumado com adversidades, não age da mesma forma”.

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