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Cultura do cancelamento: o poder e os limites de redes sociais

Dr. Acemar Farias e criadora de conteúdo Gabriela Toledo explicam até onde o tribunal da internet pode afetar na realidade das pessoas

Os antigos costumes do mundo vêm se desconstruindo em longos e dolorosos passos. O racismo, por exemplo, passa a ser cada vez menos tolerado; o bullying online tem sido combatido pelas redes sociais; e preconceitos com orientações sexuais se tornaram crimes. Porém, o mundo, principalmente na internet, está em busca da perfeição.

Cancelar uma pessoa virou uma prática usada por muitos nas redes sociais nos últimos anos. ‘Cultura do cancelamento’ foi eleito o termo mais usado do ano em 2019, pelo Dicionário Macquarie, que todos os anos seleciona as palavras e expressões que mais caracterizam o comportamento do ser humano.

De acordo com o advogado Dr. Acemar Farias, as pessoas têm o direito de se expressarem, direito esse garantido constitucionalmente, porém devemos lembrar que o nosso direito é igual para todos e está diretamente conectado com nossos deveres como cidadão, logo, se eu cometer um crime contra outra pessoa, vou receber uma sanção.

Twitter

Em redes sociais como o Twitter, vemos diversos famosos ou influenciadores digitais serem cancelados, sendo excluídos da sociedade por determinada pessoa ou grupo, deixando de existir na vida delas e não permitindo que elas sigam suas vidas sem a devida punição. Algumas vezes é temporário, outras vezes a pessoa cancelada precisa mudar, pelo menos exteriormente.

Para a influenciadora Gabriela Kemily Toledo, a maior parte das pessoas que cancelam outras, cometem o mesmo erro do cancelado. “Na maioria das vezes você só vai julgar a outra pessoa porque o outro disse aquilo que você faz em silêncio”, afirma Gabriela.

Uma pessoa ser cancelada significa que ela fez ou disse algo errado, que não é tolerado no mundo de hoje, em que muitas pessoas passaram por essa desconstrução social.

Alguns, no entanto, possuem experiências diferentes e não conseguem enxergar seus erros antes de serem rechaçadas na internet, sendo então essa punição uma maneira de “educar”.

Esta forma de cancelamento pode gerar debates sobre racismo, preconceitos com determinadas classes sociais, xenofobia, homofobia, entre outras intolerâncias. Mas o ato de cancelar também pode acontecer com coisas banais, como falar mal de uma cantora pop muito famosa ou dizer que não gosta de algo muito popular.

Segundo a influenciadora Gabriela, o problema do cancelamento está no anseio das pessoas em difamar e espalhar o ódio, cometendo o erro de não tentar mostrar como o cancelado está errado. “Eu acho que é desnecessário cancelar alguém. É preciso explicar à pessoa porque que ela está errada em determinado posicionamento”, afirma a criadora de conteúdo.

Cancelados

Em 2021 a rapper Karol Conká foi eliminada do Big Brother Brasil com 99,17% dos votos, além de ter sua carreira afetada. A cantora perdeu contratos de patrocínios e um programa que apresentava no canal GNT. Karol foi julgada como ‘culpada’ pelo ‘tribunal do Twitter’, após impor pressão psicológica em outros jogadores da casa do BBB.

Porém os reflexos do seu cancelamento não foram apenas financeiros, depois dos acontecimentos, diversas páginas foram criadas e a artista passou a ser perseguida, a ponto de ameaças de morte contra seu filho.

Outro caso de grande repercussão, foi o cancelamento do Youtuber e ex-sócio do Flow podcast, Monark, no início de 2022. Durante a gravação do podcast, Bruno Aiub (Monark), defendeu a existência de um partido nazista no Brasil.

Após as declarações, criminosas segundo a lei 7.716/1989 no artigo 20, inciso primeiro, que proíbe qualquer sinal, símbolo e ornamento que faça referência ao nazismo, Monark foi afastado de seu programa (que perdeu todos os patrocinadores), e teve uma onda de ataques na internet. Em seu pedido de desculpas, o podcaster justificou os seus atos alegando que estava bêbado. Porém diversas outras vezes Monark fez outros comentários considerados maldosos o que piorou sua ‘imagem’ na internet. Atualmente o ex-podcaster perdeu a maioria de suas redes-sociais, alguns com decisões da justiça, por considerarem os posicionamentos de Monark nocivos visto que ele é uma figura pública.

Algum tempo depois do ocorrido, Monark veio em suas redes sociais falar que devido à pressão que sofreu e ameaças direcionadas a sua família, ele chegou a pensar em suicídio.

E a lei?

Conforme o Dr. Acemar Farias é improvável que um comentário maldoso acabe indo parar no tribunal. Porém caso o cancelado ou o cancelador cometam algum crime, seja injúria racial, homofobia, qualquer tipo de preconceito, ou apologia à praticas nocivas, como o Nazismo, a justiça tomará as providencias necessárias, como ocorreu com Monark que perdeu seu espaço na vida online.