Em Escute as Feras (Editora 34/Supersônica Edições), a antropóloga francesa Natassja Martin narra o fatídico encontro que teve com um urso, quando de suas pesquisas sobre populações tradicionais em regiões isoladas da Rússia, na floresta siberiana. Sobreviveu ao ataque defendendo-se com uma pequena picareta de gelo. Mesmo assim, o urso dilacerou grande parte de sua mandíbula, que teve que ser restaurada em numerosas e dolorosas cirurgias. A obra poderia ser apenas um relato autobiográfico sobre o ataque de um animal feroz, uma história de superação. Mas na escrita antropológica de Natassja Martin, tanto seu encontro com o urso, as rotinas hospitalares, os olhares sobre a deformidade de suas feridas, a família, os amigos e principalmente a relação com as populações de seus campos de estudo se configuram como um panorama, um tecido analítico e emocional dos efeitos e contextos de sua sobrevivência. Talvez, para mim pelo menos, além do relato, da narrativa minuciosa sobre as sensações, percepções e memória do momento do seu ataque e dos percursos médicos de sua recuperação, o que mais se destaque no livro seja a correlação entre enfrentar perigos muito superiores, mais fortes e potencialmente invencíveis e o modo como nunca mais o mundo será o mesmo após sobreviver. Talvez ainda, a partir da leitura dessa auto-etnografia de Natassja Martin e seu caráter anímico, seja possível entender ou considerar as feras, a natureza como dotada de alma, de consciência ou mesmo da concepção de sua unidade como modo de ampliar as possibilidade de interpretação, de entendimento de suas reflexões e pesquisas. Sobreviver às intempéries, aos traumas, aos desafios da vida cotidiana e dos imprevistos, e em outros contextos, sobreviver à guerras e pandemias, nos ajude a pensar não apenas quem somos, mas quem nos tornamos após enfrentar as feras que, por ventura, possam surgir nos nossos caminhos.



