A instabilidade é necessária

No livro A Cidade e as Estrelas, de Arthur C. Clarke, há duas observações marcantes: “Era ocioso especular, construir pirâmides de conjecturas sobre alicerces de ignorância” e “Não basta estabilidade. Facilmente, ela gera a estagnação e, depois, a decadência”.

Essas ideias suscitam uma reflexão: quantas vezes construímos convicções sobre aquilo que desconhecemos? Refiro-me à ignorância não como falha moral, mas como ausência de conhecimento. Não tratarei aqui da esfera religiosa, onde a desinformação frequentemente favorece interesses particulares, mas da ignorância em sentido amplo.

A estabilidade é indispensável para consolidar normas e permitir o aperfeiçoamento da sociedade. Entretanto, quando excessiva ou mal conduzida, pode resultar em imobilismo. Assim como uma hidrelétrica depende do desnível para produzir energia, a sociedade necessita de certo grau de tensão para impulsionar mudanças. Sem esse movimento, instala-se um lago de aparente tranquilidade cuja degradação logo se revela.

Algum desequilíbrio, portanto, é saudável; o excesso, porém, torna-se destrutivo. As recentes manifestações populares demonstram esse impulso necessário para romper a apatia social. A história de um povo deve ser escrita por sua participação ativa, e não à sua revelia. Ao mesmo tempo, observa-se a infiltração de grupos interessados em desvirtuar protestos legítimos e, possivelmente, em desestabilizar o governo. Seria essa uma estratégia eleitoral? Prefiro não concluir sem evidências, embora a experiência me torne cauteloso quanto às motivações humanas.

O ser humano é um hábil construtor de pirâmides de conjecturas sobre alicerces de ignorância. Por isso, cabe às instituições civis e às Ordens cultivar o conhecimento acumulado ao longo dos séculos e difundi-lo, contribuindo para o desenvolvimento de toda a humanidade. Portanto, nem sempre o que aparenta ser desequilíbrio o é de verdade.

Jure et facto.