Depois do estrago

Você estava no sofá havia um bom tempo mexendo no celular. Na sua percepção, uns quarenta minutos. Na percepção de quem mora com você, tempo suficiente para concluir uma graduação. Então alguém passa e comenta:

— Você não larga esse celular nunca?

Talvez a pessoa até tivesse alguma razão. Mas o tom… Ah, o tom.

Antes que a parte mais sensata do seu cérebro conseguisse participar da conversa, você já respondeu atravessado. A outra pessoa devolveu. Você rebateu. Quando percebeu, a discussão já não era mais sobre o celular. Incluía a louça, as férias do ano passado e um episódio de 2017 que, ao que tudo indica, ainda aguarda julgamento definitivo.

Passada a tempestade, vem aquele silêncio constrangedor. E, junto com ele, normalmente aparecem dois caminhos. O primeiro é passar o resto do dia tentando provar, para si mesmo, que você estava absolutamente certo. O segundo é concluir que você é um desastre como ser humano.

Curiosamente, nenhum dos dois costuma ajudar muito.

É aqui que existe uma diferença importante entre culpa e responsabilidade. A culpa pergunta: “Como eu fui capaz de fazer isso?”. A responsabilidade pergunta: “O que aconteceu dentro de mim para eu reagir dessa maneira?”.

Parece uma diferença pequena. Não é.

A culpa costuma transformar um comportamento numa identidade. Você não pensa apenas “agi mal”. Começa a acreditar que “sou uma pessoa horrível”. A responsabilidade faz outra coisa. Ela reconhece o erro sem transformar o erro em quem você é e, principalmente, faz perguntas melhores.

Por que aquela frase me atingiu tanto? Por que perdi o controle justamente naquele momento? Aquilo realmente começou ali ou apenas apertou um botão que já existia?

Perceba que assumir responsabilidade também não significa concluir que a outra pessoa estava certa. Talvez ela realmente tenha falado de maneira desrespeitosa. Mas o comportamento dela continua sendo responsabilidade dela. A sua reação continua sendo responsabilidade sua.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Talvez uma das frases mais difíceis da vida seja: “Eu não gostei da maneira como você falou comigo… mas também não gostei da maneira como respondi.”

Existe muita maturidade escondida dentro dessa frase. Porque ela não transforma o outro em inocente, mas também não usa o erro do outro como licença para justificar o próprio.

Depois disso, normalmente existe algo bem simples a fazer: pedir desculpas. Sem acrescentar aquele famoso “mas você também…”. Porque esse “mas” costuma apagar quase tudo o que veio antes.

E, depois de reparar o que for possível, talvez venha a parte mais importante: perguntar o que aquela reação revelou sobre você. Não para se condenar. Nem para se justificar. Mas para se conhecer um pouco melhor.

No fim das contas, errar é inevitável. O que fazemos depois do erro costuma dizer muito mais sobre quem estamos nos tornando do que o erro em si.