A gestão ainda pode salva o agronegócio?

O agronegócio brasileiro atravessa uma profunda inflexão. Dominar apenas as variáveis agronômicas não garante o sucesso da safra. O produtor precisa abandonar a postura de mero “plantador” e assumir a posição de um empresário estratégico, focado na gestão de riscos.

No planejamento tático, a eficiência da porteira para dentro é testada ao limite. A exatidão da janela de plantio e a otimização de insumos são essenciais. Contudo, a busca por maximizar a produtividade encontra um teto quando o cenário econômico se torna hostil. É na gestão estratégica que o jogo do agro é verdadeiramente decidido.

O setor vive a ressaca de preços recordes das commodities, que mascarou a forte alta dos custos. Segundo estudo da Universidade de Purdue (EUA), liderado pela pesquisadora Joana Colussi, o custo de produção da soja em Mato Grosso saltou 96% entre 2021 e 2025. O reflexo? A Cogo Consultoria projeta margem de lucro de exíguos 3,9% para a atual safra de soja, o pior nível de rentabilidade em duas décadas.

A conta do descompasso chegou. Levantamentos da Serasa Experian (1º trimestre de 2026) mostram que a inadimplência no campo alcançou 8,8%. O cenário fica ainda mais evidente ao notar que os pedidos de recuperação judicial por produtores rurais pessoa jurídica (PJ) registraram um salto alarmante de 73,5%, um movimento puxado sobretudo pelos sojicultores.

Para blindar o caixa, ferramentas de proteção tornaram-se inegociáveis. O seguro rural atua como escudo contra a imprevisibilidade climática; a trava de preços garante que a margem não evapore com a volatilidade; e a diversificação de culturas mitiga os riscos. Em certos cenários, a melhor estratégia é adiar a compra de máquinas para preservar capital.

O novo ciclo do agro exige menos aposta no clima e mais rigor financeiro.

(Fontes: Revista Exame, Serasa Experian, Cogo Consultoria, Univ. Purdue)