11 anos de dados revelam comportamento do tempo

Professor da UFFS reúne 3.815 registros da estação meteorológica da Universidade e analisa temperaturas, chuvas e ventos

Há 11 anos, uma estação meteorológica registra, dia após dia, a temperatura, a chuva e o vento em Laranjeiras do Sul. Agora, esse acervo de dados ganhou organização e virou um estudo completo.

O trabalho foi coordenado pelo professor Josuel Alfredo Vilela Pinto, Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Agronomia pela UFSM, e Coordenador Curso de Agronomia da UFFS no Campus Laranjeiras do Sul. Ele reuniu e analisou 3.815 registros diários coletados pela estação da universidade entre outubro de 2015 e agosto de 2026.

Batizado de ‘Organização de Dados e Análise Estatística Climatológica’, o relatório junta em uma única base informações que antes estavam espalhadas em planilhas e boletins mensais separados. Ao todo, são 3.815 registros diários e 127 resumos mensais.

“O objetivo é consolidar em uma base única e auditável os dados brutos da estação UFFS-LS”, explica Josuel.

Um quebra-cabeça de dados

Segundo o professor, juntar 11 anos de informações não foi simples. A base inicial estava boletins mensais em PDF. O levantamento também mapeou as falhas na série histórica. Quatro meses ficaram sem nenhum registro (agosto de 2017, agosto de 2018, agosto de 2020 e junho de 2021)  além de dois dias isolados sem dados. O sensor de vento também apresentou problemas a partir de 2024, por isso essa variável só foi analisada com segurança até meados daquele ano.

O que a estatística revela

Para além das médias simples de temperatura e chuva, o professor aplicou testes estatísticos usados internacionalmente em estudos climáticos para verificar se há tendências de mudança ao longo do tempo.

Entre as ferramentas utilizadas estão o teste de Mann-Kendall e a inclinação de Sen, que juntos indicam se uma variável está aumentando ou diminuindo ao longo dos anos, e o quanto. A regressão linear serviu como comparação. O estudo também recorreu a análises de distribuição de probabilidade e à Teoria de Valores Extremos, usada para avaliar eventos raros, como picos de calor, geadas e chuvas intensas.

Os dados analisados indicaram, por sua vez, que não foi identificada, no período, uma tendência estatisticamente significativa de aumento da temperatura ou de mudança no volume de chuva. Mas o professor faz uma ressalva importante, 11 anos é um período curto para conclusões sobre mudanças climáticas de longo prazo. “A ausência de tendência estatisticamente significativa não deve ser interpretada como evidência de estabilidade climática absoluta”, afirma.

Como é o clima de Laranjeiras

Os números mostram um município de temperatura média de 20,3°C. Fevereiro é o mês mais quente, com média de 23,2°C, e junho, o mais frio, com 16,3°C.

Já a chuva é bem distribuída ao longo do ano. Mesmo o mês mais seco, julho, registra em média 111,2 milímetros, acima dos 100 milímetros que caracterizam um clima subtropical úmido, sem estação seca definida.

Nos extremos, a maior temperatura da série foi 36,2°C, registrada em 2 de outubro de 2020. A menor, -1,5°C, em 24 de junho de 2025. O maior volume de chuva em um único dia foi de 188 milímetros, em 22 de maio de 2020, o maior evento chuvoso de toda a série, algo que, segundo o modelo estatístico usado no estudo, tende a se repetir a cada 30 ou 40 anos.

O levantamento também identificou a maior estiagem do período. 43 dias seguidos sem chuva relevante, entre 15 de abril e 27 de maio de 2018. Já a sequência mais longa de dias chuvosos foi de 17 dias, entre 16 de janeiro e 1º de fevereiro de 2021.

De onde vem o vento

A análise do regime de vento, possível até meados de 2024 (quando o sensor apresentou falhas), mostra que os ventos predominantes em Laranjeiras do Sul vêm do quadrante sudoeste-oeste. Esse padrão é típico do sul do Brasil: quando uma frente fria passa pela região, o vento gira do quadrante norte/noroeste para sudoeste/sul.

Próximos passos

Para Vilela Pinto, organizar os registros dá à estação meteorológica da UFFS uma base mais sólida para novos estudos. O relatório recomenda a continuidade das medições, com atenção especial à recuperação do sensor de vento, e defende a ampliação da série histórica. Isso porque, segundo o próprio estudo, séries de cerca de 30 anos são as mais indicadas para identificar tendências climáticas de longo prazo. Por enquanto, os resultados retratam o comportamento observado em Laranjeiras do Sul entre 2015 e 2026, não uma projeção do clima futuro.

Quer trabalhar com dados como esses?

A pesquisa também contou com a participação de Karine Filgueira da Silva, acadêmica do curso de Engenharia de Aquicultura da UFFS.
Pesquisas como a do professor Josuel Alfredo Vilela Pinto nascem dentro dos cursos de Agronomia e de Engenharia de Aquicultura da UFFS Campus Laranjeiras do Sul. Neles, o estudante aprende a usar estação meteorológica, análise estatística e ferramentas de dados para entender solo, clima, água e produção agropecuária na prática, desde os primeiros semestres.

A Agronomia forma profissionais para atuar em manejo de culturas, irrigação, previsão de safra, gestão de propriedades rurais e pesquisa aplicada. Já a Engenharia de Aquicultura prepara para o cultivo de peixes e outros organismos aquáticos, manejo de qualidade da água e desenvolvimento e sistemas produtivos sustentáveis, áreas estratégicas para uma região como o Centro-Sul do Paraná, com forte vocação agrícola e rica em recursos hídricos.

O professor mantém plataformas digitais voltadas ao monitoramento e à análise de dados agroclimáticos, ambientais e meteorológicos, entre elas o SisAgro https://sisagro-josuel.netlify.app/, o AquaData https://aquadata-josuel-uffs.netlify.app/, o UFFS AgroMT https://uffs-agromt-josuel.netlify.app/ e uma estação meteorológica disponível no Weather Underground https://www.wunderground.com/dashboard/pws/ILARAN1.

Outubro concentra as maiores chuvas do ano, enquanto julho é o mês mais seco — e também um dos mais frios, junto com junho.

Direção predominante do vento na região, com destaque para o quadrante sudoeste — padrão associado à passagem de frentes frias.