Existe uma versão muito eficiente de nós mesmos que aparentemente está sempre prestes a chegar.
Ela vai começar a academia, organizar aquela gaveta, estudar, caminhar, terminar o projeto e finalmente resolver aquilo que está sendo adiado há semanas. Só falta uma coisa: sentir vontade.
E esperamos.
O problema é que a vontade, essa funcionária de comportamento bastante instável, nem sempre comparece no horário combinado.
É comum imaginar que primeiro precisamos estar motivados para depois agir. Quando eu estiver inspirado, começo. Quando estiver mais disposto, faço. Segunda-feira parece particularmente promissora, embora algumas segundas já tenham sido sacrificadas nessa negociação.
Só que muitas vezes o processo funciona ao contrário.
Você começa sem vontade. Coloca o tênis, abre o documento, guarda a primeira coisa, lê a primeira página. Alguns minutos depois, aquilo que parecia exigir uma enorme quantidade de energia começa a ficar mais fácil.
A disposição apareceu depois do movimento.
Isso acontece porque nem toda ação precisa nascer de um estado emocional favorável. Podemos estar sem vontade e ainda assim fazer alguma coisa. Parece óbvio, mas passamos uma quantidade considerável de tempo negociando conosco como se precisássemos obter autorização emocional antes de começar.
E existe outra armadilha: esperar o momento ideal. Quando houver mais tempo, menos problemas, mais energia, a cabeça estiver tranquila e os planetas aparentemente tiverem chegado a algum acordo administrativo, aí começamos.
Esse dia costuma ter dificuldades de agenda.
Talvez seja mais útil diminuir a importância do começo. Em vez de “preciso fazer tudo”, fazer alguma coisa. Dez minutos. Uma página. Uma volta no quarteirão. O primeiro passo não precisa resolver o problema; precisa apenas interromper a inércia.
Curiosamente, depois que começamos, muitas vezes descobrimos que a vontade não estava faltando.
Ela só estava esperando a gente ir primeiro.



