Há pessoas que saem da nossa vida, mas aparentemente esquecem de devolver a chave da nossa cabeça.
A conversa terminou. A discussão passou. Às vezes a relação inteira já acabou. Mas basta um momento de distração e lá está a criatura novamente, confortavelmente instalada no pensamento.
Você lembra do que ela disse. Depois lembra do que deveria ter respondido. Refaz a conversa, acrescenta argumentos muito melhores e, numa versão particularmente satisfatória, finalmente diz aquela frase brilhante que deixaria o outro sem palavras.
Uma pena que a discussão tenha acontecido há três anos.
A mente tem dessas coisas. Consegue transformar acontecimentos antigos em experiências emocionalmente atuais. O fato já passou, mas nós o reproduzimos internamente e sentimos novamente raiva, mágoa, indignação. O personagem nem está presente, mas continua provocando reações com uma eficiência admirável.
E o mais curioso é que muitas vezes dizemos que não queremos mais saber daquela pessoa.
Só pensamos nela no café, no banho, dirigindo e antes de dormir.
Ou seja: expulsamos da vida e oferecemos uma cobertura duplex na cabeça.
É claro que algumas experiências precisam de tempo para serem elaboradas. Há feridas reais, injustiças e relações que deixam marcas. Voltar mentalmente ao que aconteceu pode fazer parte da tentativa de compreender, organizar sentimentos e até enxergar coisas que, na época, não conseguíamos perceber.
O problema é quando a reflexão deixa de produzir alguma compreensão nova e vira apenas reprise.
Talvez uma boa pergunta seja: o que ainda estou tentando resolver cada vez que volto a essa história?
Às vezes esperamos uma explicação que nunca veio. Um pedido de desculpas. O reconhecimento de que tínhamos razão. Ou continuamos imaginando aquela conversa perfeita em que, finalmente, tudo seria entendido e o passado ganharia um final mais satisfatório.
Só que o passado demonstra pouquíssima disposição para renegociar o roteiro.
E talvez aí esteja uma diferença importante: lembrar para compreender é uma coisa; lembrar apenas para sentir novamente é outra.
Não precisamos negar o que aconteceu, inocentar ninguém ou fabricar um perdão que ainda não existe. Mas podemos começar a perceber quando uma história antiga continua ocupando um espaço enorme na vida atual sem acrescentar mais nada além da própria repetição.
Algumas pessoas talvez nunca reconheçam o que fizeram, nunca peçam desculpas e nunca entendam o nosso lado.
Mas isso não significa que precisem continuar morando conosco.
Muito menos de graça.



