Dia do compositor: Compor é transformar vivências em música
Da obra de Índio Aragano às novas gerações de artistas, a música segue como expressão da identidade, atravessando o tempo e conectando histórias e memórias
Laranjeiras do Sul tem na música uma marca de identidade. Um dos símbolos dessa história é João Maria dos Santos Oliveira, o ‘Índio Aragano’, cantor e compositor natural do município, que faleceu em janeiro de 2025, aos 67 anos, em Itapetininga (SP). Autor de aproximadamente 150 composições, deixou clássicos da música tradicional gaúcha como ‘Loira Querida’, ‘Mata o Véio’, ‘Mãe Aparecida’ e ‘Baile Véio’. Sua trajetória segue como referência para novas gerações de compositores da cidade, celebrados neste 15 de janeiro, ‘Dia do Compositor’.
Entre esses nomes estão Thiago Trippeno e Willen Vinícius, que atuam em estilos distintos, mas compartilham a experiência de transformar vivências em música. Para eles, compor é um exercício de identidade e expressão, muitas vezes silencioso e pouco visível ao público. Thiago, assim como Aragano, é natural de Laranjeiras, enquanto Willen é morador da cidade há quase 1 ano.
Composição como vocação
Para Thiago Trippeno, a música sempre esteve presente. “Com nove ou dez anos eu já tocava violão na igreja. Depois vieram as bandas e a vontade de escrever”, relata. Para ele, a composição não foi descoberta, mas origem. “Não me descobri compositor. Foi algo que nasceu comigo”.
Trippeno tem canções gravadas com a banda ‘Àdheriva’ e vê outras ganhando espaço agora. “Uma música minha, ‘Amor de Internet’, foi gravada pela Elizete Vidal e está tocando nas rádios da região”, conta. Ainda assim, diz que muitas seguem guardadas. “Tenho várias escondidas em pastas do computador, esperando um desfecho”.
O reconhecimento local também vem por outros caminhos. “O pessoal me conhece mais pela escola de música, o ‘Beco do Som’, e pelas bandas que toquei”, explica. Sobre o processo criativo, ele reforça o caráter espiritual. “Sempre fui da opinião que música é algo divino. Realmente vem de Deus”. E completa. “Às vezes olho uma letra e penso: como escrevi isso?” Ao lembrar o ‘Dia do Compositor’, Trippeno defende mais atenção a quem escreve. “A gente ouve uma música e nem imagina o que estava acontecendo na vida de quem a compôs”, diz. “Precisamos valorizar mais essas pessoas”.
A escrita que virou música
Willen Vinícius, cujo nome artístico era Will, conta que a composição surgiu quase por acaso. “Eu era escritor há dois anos e, em 2015, com 22, tentei escrever um rap. Consegui. Tentei outro e deu certo também”, lembra. O que começou como brincadeira se transformou em trajetória artística. “Não só consegui fazer três letras como virei compositor e rapper nessa brincadeira. Lancei meu primeiro EP assim e não parei de compor por oito anos seguidos”.
Ao todo, ele estima ter escrito cerca de 60 letras. “Tenho três EPs e um álbum, além de outras músicas que fiz depois, algumas que nem gravei ou não postei”, diz. Apesar da produção, o reconhecimento ainda é discreto. “Não, em Laranjeiras a maioria não sabe que eu sou compositor”, afirma, rindo. Sobre as próprias letras, o olhar é de surpresa. “Tem coisas que eu releio e penso: como escrevi isso? A minha melhor música eu creio que seja ‘Munique’, mas letras como ‘Cria’ e ‘Cor’, uma ‘voz e violão’ que fiz pra minha noiva, são diferenciadas, especiais”.
No ‘Dia do Compositor’, as histórias de Thiago e Willen reforçam uma tradição que atravessa gerações em Laranjeiras, da obra de Índio Aragano às canções que ainda aguardam o momento de serem ouvidas.



