Vozes que informam, companhias que atravessam gerações

No Dia Mundial do Rádio, Henrique Romanini e Ivan Théo relembram trajetórias, desafios e o papel social de um dos meios mais próximos da população

Antes mesmo da televisão e da internet transformarem a forma de consumir informação, uma voz que saía de caixas sonoras já aproximava pessoas, levava notícias e fazia companhia em lares, lavouras e estradas. O rádio, surgido a partir de experimentos no fim do século XIX e consolidado no início do século XX, rapidamente se tornou um dos meios de comunicação mais presentes no dia a dia da população.

No Brasil, a primeira transmissão oficial ocorreu em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência, marcando o início de uma relação duradoura entre o veículo e os brasileiros. Ao longo das décadas, o rádio acompanhou mudanças tecnológicas, atravessou gerações e permaneceu como fonte de informação, entretenimento e serviço, especialmente pela sua proximidade com as comunidades.

Para celebrar essa trajetória, o dia 13 de fevereiro é lembrado como o Dia Mundial do Rádio, data instituída pela Unesco para reconhecer a importância social e cultural do meio. Em Laranjeiras, o rádio também construiu sua própria história, marcada por vozes que se tornaram parte da rotina da população. Para relembrar essa caminhada, o Jornal Correio do Povo do Paraná, conversou com dois dos radialistas com mais tempo de atuação na cidade, que compartilham experiências, desafios e a paixão pelo microfone: Henrique Romanini e Ivan Théo.

Quando a paixão vira profissão

Com quase quatro décadas de atuação, Henrique Romanini, de 68 anos, construiu uma trajetória marcada pela versatilidade e pela experiência em diversas emissoras do país. Ele conta que o ingresso no rádio aconteceu de forma inesperada, após deixar a carreira bancária e investir em um negócio próprio.

O pessoal elogiava muito minha voz e dizia que ela era bonita. Quando fui fazer um comercial na televisão, pedi a oportunidade para locução. A rádio ouviu e me convidou. Foi assim que comecei”, relembra.

Romanini passou por mais de 30 emissoras de rádio nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rondônia, mas destaca que encontrou em Laranjeiras o local onde consolidou sua carreira. “Aqui foi onde trabalhei por mais tempo, foram 26 anos dedicados ao rádio”, afirma.

Já Ivan Théo, hoje com 56 anos e mais de 35 anos de profissão, teve o primeiro contato com o microfone ainda na juventude, durante o período em que vivia em um seminário. Segundo ele, a vocação surgiu em um momento tradicional da programação radiofônica. “O padre me encarregou de fazer os avisos durante a Ave Maria. O pessoal começou a gostar e, com o tempo, passei a fazer a mensagem final e depois a Ave Maria sozinho. Quando saí do seminário, percebi que minha vocação não era ser padre, mas radialista”.

O primeiro programa profissional veio pouco depois, em uma emissora de Faxinal, onde iniciou uma trajetória que segue até hoje. “Terceirizei o programa e fazia todas as noites. Depois fui contratado e nunca mais saí do rádio”, relembra.

Ivan conta que em Laranjeiras iniciou sua jornada em 1994 na Rádio Educadora, onde permaneceu por dois anos. Em 1996, fui para a Rádio Campo Aberto. “Estou na Rádio Campo Aberto até hoje. Inclusive, hoje mesmo, no Dia Mundial do Rádio, 13 de fevereiro, a Rádio Campo Aberto completa 36 anos de história”, conta.

A evolução tecnológica sem perder a essência

Ao longo das décadas, os profissionais acompanharam profundas transformações tecnológicas. Romanini lembra das dificuldades enfrentadas nas transmissões externas no início da carreira.

Para fazer uma transmissão ao vivo, chegamos a esticar mais de 100 metros de fio. Hoje, com a informática e o rádio digital, tudo ficou muito mais fácil”, relata Romanini.

Ivan também destaca a evolução estrutural e técnica do meio, desde o período do rádio AM até a modernização com o FM e as plataformas digitais.

A gente trabalhava com discos, fitas e máquinas de escrever. Para conseguir informação, tinha que ouvir outras emissoras e anotar tudo. Hoje, com a internet e o WhatsApp, tudo ficou mais ágil e com mais qualidade para o ouvinte”, afirma Ivan.

Apesar das mudanças, ambos concordam que a essência do rádio permanece. Para Romanini, a principal característica do meio está na dinâmica e na proximidade com o público. “Você pode trabalhar, viajar, fazer qualquer atividade e continuar ouvindo rádio. Isso faz com que ele permaneça relevante”, diz.

Ivan reforça essa conexão ao definir o veículo como companhia diária para milhares de pessoas. “Onde tem o radinho ligado, não tem solidão”, resume Ivan.

Muito além da informação: o rádio como serviço e companhia

Mais do que informar e entreter, o rádio também cumpre papel social relevante. Romanini destaca que o contato direto com a população permite ajudar em diversas situações.

Diariamente vivemos isso. Já ajudamos pessoas a encontrar parentes, mobilizamos campanhas de arrecadação e levamos informações importantes em momentos difíceis”, afirma. Ele lembra ainda da cobertura de tragédias regionais, que mobilizaram ouvintes e entidades para auxiliar famílias atingidas.

Ivan também guarda experiências marcantes relacionadas à transformação social proporcionada pelo rádio. Um dos exemplos citados por ele foi o projeto “Desafio à Balança”, que reuniu profissionais da saúde para acompanhar pessoas com obesidade. “O projeto ajudou muitas pessoas a melhorar a qualidade de vida. Foi algo que mostrou como o rádio pode contribuir diretamente para a sociedade”, relembra.

Outro destaque foi o incentivo à formação de novos comunicadores por meio do programa, da Rádio Campo Aberto, “Pratas da Casa”. “Muita gente que hoje trabalha no rádio começou ali, teve oportunidade e incentivo”, conta Ivan.

Desafios atuais e a presença nas novas plataformas

Mesmo diante da expansão das redes sociais e das novas plataformas digitais, os profissionais acreditam que o rádio continua desempenhando papel fundamental. Para Romanini, a integração com o ambiente digital tornou-se inevitável. “É um casamento necessário. As redes sociais ajudam a ampliar o alcance e aproximar ainda mais o público”, explica.

Ivan compartilha da mesma visão e ressalta que a modernização é essencial para manter a conexão com os ouvintes. “O rádio que não investe nas plataformas digitais acaba ficando para trás. É preciso unir o útil e o agradável sem perder a essência”, avalia.

Um futuro que continua no ar

Sobre o futuro, os radialistas reconhecem que as transformações tecnológicas continuarão, mas apostam na permanência do rádio como meio de comunicação relevante. Romanini acredita que a informação tende a ganhar ainda mais espaço.“Eu vejo o rádio cada vez mais voltado à informação, talvez com menos música e mais conteúdo jornalístico”, projeta.

Já Ivan destaca o caráter atemporal do veículo. “O rádio é um companheiro diário, um veículo mágico. Assim como foi importante no passado, vai continuar sendo essencial para as comunidades”, afirma.

Enquanto tecnologias surgem e transformam hábitos de consumo de informação, o rádio segue ocupando um espaço que vai além da notícia ou do entretenimento. Presente no trabalho, nas viagens, nas casas e no campo, o meio mantém uma característica rara na comunicação moderna: a capacidade de estar próximo, de falar diretamente com as pessoas e de construir relações de confiança.

Mais do que um meio de comunicação, o rádio permanece como parte da memória afetiva de gerações e segue provando, a cada transmissão, que sua força não está apenas no som que ecoa pelos aparelhos, mas na capacidade de unir pessoas, contar histórias e dar voz às comunidades.

O Jornal Correio do Povo do Paraná agradece aos radialistas Henrique Romanini e Ivan Théo pela disponibilidade e por compartilharem memórias, experiências e sentimentos construídos ao longo de anos dedicados ao rádio. A trajetória dos profissionais reflete a importância do meio de comunicação para a sociedade e inspira novas gerações de comunicadores. O jornal também parabeniza a Rádio Campo Aberto pelos 36 anos de atuação, celebrando a parceria e o compromisso conjunto com a informação, a comunidade e o fortalecimento da comunicação regional.