O PREÇO DA BANHA

O colunista ouviu muitas vezes em tempos idos a pergunta: Será que você não sabe o preço da banha?, dito

O colunista ouviu muitas vezes em tempos idos a pergunta: Será que você não sabe o preço da banha?, dito pelos mais velhos aos jovens que desejavam casar. Não havia óleo vegetal para preparar os alimentos e a banha de porco era importada. O visionário responsável por um dos maiores impérios industriais do Brasil Francesco Matarazzo vislumbrou um dos negócios que mudaram o futuro e influenciaram no desenvolvimento de diversas cidades do país. Ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1881, as duas toneladas de banha de porco que trazia da Itália naufragaram na Baía da Guanabara. Toda banha usada no Brasil era importada e o café era o produto mais importante da economia nacional. O italiano optou por investir em outros produtos essenciais à mesa do brasileiro. Primeiro teve a idéia de vender banha de porco em lata. Naquela época, o produto vinha em barricas de madeira, que muitas vezes deixavam o conteúdo estragar. Diz a história que em 1883, Matarazzo criou sua primeira fábrica – prensas de madeira e tachos de metal –, usados para a produção da banha e, em 1918 inaugurou grande frigorífico em Jaguariaiva no Paraná. Assim, a necessidade de ter mais porcos se intensificou e surgiram os ‘safristas’, responsáveis por derrubar matas, plantar milho e no tempo da colheita soltar porcos magros na plantação. Reuniam centenas de porcos e não colhiam o milho, deixavam que os animais fizessem o esforço para ter o alimento, como forma de engordar e exercitar o bicho ao mesmo tempo, já que precisariam ter energia para as longas viagens. Seu Antônio Tomé de Freitas (im-memoriam) contou a este colunista que, por dia, as tropas percorriam de seis a sete quilômetros, às vezes até dez, em jornadas que poderiam durar 60 dias ou mais. Comentou que as tropeadas eram realizadas entre os meses de junho e agosto desde onde hoje é Laranjeiras do Sul até o destino final em Ponta Grossa e de lá, embarcados no trem até Jaguariaiva. Uma das últimas testemunhas vivas da época é o senhor Guilherme de Paula Neto, que engordava grandes tropas. Na página 69 do livro Nerje – Laranjeiras do Sul – o leitor vê uma rara fotografia da vara de porcos gordos, os tropeiros e a carroça, iniciando mais uma longa viagem até o mercado comprador. No local da imagem, os irmãos Teodoro e Nicolau Pesh, que possuíam armazém e selaria, compravam porcos de pequenos safristas e após reunirem tropas maiores, com peões próprios e contratados, faziam a viagem até o destino final. Sem dúvida, foi um período que impulsionou a economia dos povoados que viraram cidades, aí se incluindo Laranjeiras do Sul e muitas outras no Paraná e todo o Sul do Brasil.

PS. Saúdo os amigos leitores Luiz Carlos Lipski e Edson Kudelski que preferem quando o colunista escreve sobre causos antigos.