Um arquipélago de emoções

O texto do espetáculo da Súbita Companhia de Teatro, O Arquipélago, que está em cartaz em Laranjeiras do Sul neste sábado no Cine Teatro Iguassu, às 15h e às 19h30, parece construir pontes entre ilhas distantes.

Explico, a alusão às memórias, às reminiscências que constituem o monólogo de algum modo parecem se conectar com as lembranças do público. A abordagem intensamente pessoal com que o dramaturgo e ator Pablito Kucarz, autor do texto, trás à tona fatos de uma infância e adolescência com acontecimentos não tão felizes, a maneira com que são narrados não apenas os acontecimentos, mas as sensações e emoções perante a memória, parece, para mim pelo menos, um caminho para minhas próprias memórias.

Falo isso a partir da leitura do livro com o texto do espetáculo, publicado pela Companhia Súbita em 2019.  No texto introdutório ao livro, escrito pela também dramaturga e pesquisadora Lígia Souza Oliveira, somos alertados que a dramaturgia de Pablito Kucarz é um processo de pesquisa sobre si mesmo, um exercício de autoficção, tal como algumas obras de Cristóvão Tezza ou mesmo Chico Buarque. Quais memórias guardamos e, por ventura, lembramos quando vemos um ator revelar de maneira tão contundente suas dores e alegrias? Como trabalhar sobre os próprios traumas pode ser uma experiência estética? Claro, nem toda memória merece virar poema, ou mesmo texto teatral.

No caso de O Arquipélago, da potência de sua intimidade desvelada, escancarada a um público perigosamente próximo, cada salto de um lembrança a outra, que se costuram em conexões tão naturais quanto uma conversa, parecem eclodir como bolhas vindas de um mar profundo, um mar revolto, mas com ilhas dispersas onde podemos, enfim, aportar com algum conforto.