Há alguns anos, neste mesmo espaço, discorri sobre a necessidade de recuperar a bandeira nacional, apropriada pela extrema direita. Lamentei seu uso como símbolo de quem segue ideais que foram de Hitler e Mussolini. Não é preciso repetir a tragédia que o mundo sofreu por fingir não ver o monstro.
Em caminhadas pela cidade, tristemente vi residências humildes ostentando a bandeira associada por muitos a uma família que, em minha avaliação, muito mal fez ao país e ainda faz. Que os ricos defendam privilégios, entendo, embora não concorde. Mas dá pena ver o que a “falta de luz” (falta de consciência de classe) faz às almas menos afortunadas.
Felizmente, a Copa trouxe reviravolta. Progressistas ousaram vestir a camisa da seleção. Uns, temendo confusão, optaram pela azul; outros, mais corajosos, resgataram a amarela. Já não se pode afirmar a ideologia de quem usa a “amarelinha”, pois o símbolo é compartilhado por ambos os lados. Também não se deduz mais a posição ideológica do morador pela bandeira na janela. O Brasil, mesmo polarizado, vive a febre da Copa: “somos 215 milhões em ação”.
Ainda que a ressignificação seja um avanço, não esqueço que, até ontem, a mesma camisa era usada por quem defende o oposto do que acredito. O símbolo mudou de mãos, mas a memória não se apaga. Essa tensão, mesmo atenuada ainda existe.
Lembro do Santos de Pelé. Em 1969, na Guerra de Biafra (Nigéria), a equipe conseguiu um cessar-fogo para que a população assistisse ao futebol arte. O futebol provou ser mais que entretenimento: foi trégua humanitária.
Confesso que joguei a toalha no 7 a 1 de 2014, mas voltei a assistir à seleção nesta Copa. Retomei o hábito de torcer para os países colonizados (América Latina e África) contra potências europeias. Com arroubo, comemorei Cabo Verde e Paraguai. Em confrontos entre nossos irmãos, deixarei o coração decidir.
No “País do Futebol”, a Copa recolocou as cores nacionais em seu devido lugar: no coração e na mente dos brasileiros. Mostrou que é possível partilhar um símbolo, mas isso não apaga desigualdades. O futebol é trégua, não paz definitiva.
O país continuará polarizado, é a luta de classes movendo a história nacional. Lamento que muitos trabalhadores se postaram em trincheiras equivocadas. Mas a amarelinha, agora, não é mais somente deles, é nossa. E isso já é uma pequena vitória.



