Uma quase distopia

Final de semana passado assisti um filme angustiante, pra não dizer, assustador: O Aniversário, do cineasta polonês Jan Komasa. Para falar sobre o filme, vou contar trechos e o desenrolar da trama, ou seja, contém spoilers. No enredo, uma família americana bastante tradicional, de classe alta, morando em um bairro nobre, vê sua vida (e seu país) se desmantelar após ideologias de extrema-direita se infiltrarem na rotina e nas decisões do cotidiano.

Quando um dos filhos do casal interpretado por Kyle Chandler e Diane Lane apresenta a nova namorada no aniversário de casamento dos pais, um leve desconforto parece se descortinar no evento. A namorada, interpretada por Phoebe Dynevor, tenta ser gentil a todo custo e agradar a sogra. Esconde que ambas já se conheciam, que a sogra havia sido sua professora na universidade e a havia reprovado por conta de um trabalho em que defendia posições antidemocráticas. Não necessariamente as personagens são politicamente engajadas no início do filme, mas possuem consciência de suas posições e escolhas.

Por gentileza, civilidade, por amor ao filho apaixonado as discussões sobre política e os julgamentos sobre os posicionamentos da moça são deixados em segundo plano. Com exceção da mãe, evita-se discutir abertamente sobre política nos eventos familiares subsequentes. Isso até que as ideias da moça tomam forma através de um livro que se torna um sucesso nacional, vendendo milhões de cópias e difundindo uma teoria flagrantemente facista.

O interessante das distopias é a sua ameaçadora proximidade com a realidade. A cada novo aniversário de casamento, conforme as ideologias defendidas no livro influenciam governantes, dirigentes e a população, o próprio país se transforma. Se antes evitar discussões políticas era algo feito por educação, agora criticar a nova forma de governo é crime federal.

O desenrolar sangrento da trama, a dissolução da família pela violência de um Estado agora totalitário, parece ser a consequência direta da ausência gentil de acalorados debates familiares. De certa forma, de modo muito próximo ao nosso cotidiano, evitar discutir sobre política pode ter consequências funestas.