Há alguns meses, assisti a uma fala indignada do presidente Lula: “Por que esse pessoal do agronegócio prefere o Bolsonaro, se ninguém fez mais por eles do que eu?” A pergunta me intrigou. Buscando respostas na internet, encontrei um festival de loas: canais tratando os agentes do agro como os únicos responsáveis por “carregar o Brasil nas costas” e outros concedendo toda a glória ao governo Bolsonaro (2019–2022).
O problema é que boa parte desse conteúdo desinforma. O agronegócio não carrega o Brasil sozinho. Não há “mão invisível”: há o Estado brasileiro apoiando e sustentando a atividade. O que seria do agro sem as isenções tributárias? Sem o Plano Safra e as linhas de crédito do Banco do Brasil? Sem as pesquisas da Embrapa?
Encontrei também um vídeo da pecuarista Juliana Giraldini, que respondia qual teria sido o melhor governo para o agro. Segundo ela, a ditadura investiu no setor, mas a hiperinflação endividou os produtores. Collor taxou juros em 80%; FHC tentou três planos e não conseguiu. Em 2003, houve conjuntura favorável: tecnologia da Embrapa, entrada da China e o governo Lula, que concedeu vinte anos para pagamento das dívidas e criou o Plano Safra atual. Dilma elevou o Plano Safra, e Temer e Bolsonaro deram continuidade. Juliana afirmou ainda que o governo Lula 3 investiu 2,1 trilhões de reais, sendo a maior parcela para o grande produtor.
Segundo a pecuarista, o agro simpatiza com a direita devido à flexibilização da fiscalização. Para obter empréstimo rural, o produtor precisa apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Havendo irregularidades ambientais ou trabalhistas, em governos mais exigentes como os de esquerda, os recursos não saem.
A fala de Juliana faz sentido. No governo Bolsonaro, a fiscalização foi severamente reduzida. Seu ministro Ricardo Salles foi flagrado em vídeo afirmando que a pandemia era o momento ideal para “passar a boiada”, flexibilizando normas ambientais enquanto a imprensa estava distraída.
Mas há mais camadas. O agro espera menos regulação, mais livre mercado e tem alinhamento ideológico com a direita, inclusive nas pautas de costumes e no armamentismo. Teme ocupações de terras, embora a propriedade produtiva seja garantida em lei. Sabe que, em governos de direita, a reforma agrária não avança. E, embora defenda o Estado Mínimo, exige para si um Estado Máximo. Vê empréstimos, reduções e isenções como obrigação, não benefício.
Enfim, o agronegócio quer a “mão invisível” do mercado para o restante da sociedade, mas quer o Estado em corpo e alma a seu serviço.



