A mitologia da vida e a verdade

O que, em nossas vidas, aconteceu de fato e o que são narrativas que fomos elaborando no correr dos anos, até nos convencermos de que são verdadeiras? Lembremos da pergunta de Pôncio Pilatos a Jesus “Quid est veritas?”

A vida é uma sucessão de acontecimentos. A cada situação, criamos uma narrativa que lhes dá sentido. No entanto, lembrar é reconstruir experiência vividas e, nesse processo, corremos o risco de alterar parte dessa narrativa.

Na psicologia, há o fenômeno das falsas memórias, que podem ser definidas como lembranças de eventos que não aconteceram, situações que nunca presenciamos, lugares onde nunca estivemos ou, ainda, recordações distorcidas do que realmente ocorreu. Não refletir leva-nos a acreditar em fantasias e ilusões.

Dessa forma, parte da história que acreditamos ter vivido pode não corresponder aos fatos. Podemos incorporar relatos de outras pessoas como se fossem nossos ou distorcer experiências antigas. Além disso, como a memória é permeada por emoções, lembrar é também construir narrativas influenciadas por perspectivas políticas, sociais, religiosas etc.

O psicólogo Altay Alves Lino de Souza destaca que falsas memórias não se confundem com fake news, pois são fenômenos diferentes. No entanto, a capacidade humana de gerar falsas memórias pode contribuir para que notícias falsas encontrem terreno fértil para se disseminar. E é isso que tem ocorrido nas mídias: informações permeadas por ideologia circulam e trazem desinformação, o que prejudica a sociedade na construção de um conhecimento sólido e de uma identidade autêntica. Lembremo-nos de que a verdade nos liberta da ignorância.

Por fim, recordemos a máxima atribuída ao filósofo grego Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”. O autoconhecimento é essencial para refletirmos sobre aquilo que pensamos, lembramos e acreditamos ser verdade. Nesse sentido, permanece a pergunta: “Quid est veritas?”

Jure et facto.