A comunicação não termina quando você termina de falar

Caro leitor do Correio do Povo do Paraná, nas últimas semanas percorremos juntos três perguntas fundamentais para quem deseja se comunicar melhor: quem fala, o que fala e como fala.

Basicamente, a primeira pergunta se refere ao processo de autoconhecimento. Dito de outro modo, quem sou eu enquanto falo. Em seguida, trata-se da mensagem. O que é que eu gostaria de dizer. E, finalmente, qual é a linguagem, vocabulário, tom de voz, velocidade da fala, expressões corporais e outros meios auxiliares que utilizarei para estabelecer a comunicação.

Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante:

O que acontece depois que eu falo?

Porque a comunicação não termina quando a nossa voz se cala.

Na verdade, é justamente aí que começa uma parte fundamental dela.

Imagine que você diga alguma coisa com a melhor das intenções. Na sua cabeça, a mensagem é clara. Você sabe exatamente o que quis dizer.

Mas a pessoa que ouviu interpreta de outra maneira.

E agora?

É comum respondermos: “Mas não foi isso que eu quis dizer.”

E pode ser verdade.

Só que existe uma diferença entre intenção e impacto.

A intenção está dentro de quem fala. O impacto acontece em quem recebe.

Não temos controle absoluto sobre a interpretação do outro. Cada pessoa escuta uma mensagem a partir de suas próprias experiências, expectativas, emoções e conhecimentos. A isso chamamos de filtro cognitivo.

Por isso, duas pessoas podem ouvir exatamente a mesma frase e sair da conversa com entendimentos completamente diferentes.

Isso não significa que precisamos viver com medo de tudo o que falamos. Significa que precisamos desenvolver uma característica que considero indispensável para uma boa comunicação: a responsabilidade.

Responsabilidade para escolher as palavras.

Responsabilidade para perceber o ambiente.

Responsabilidade para adaptar a linguagem.

E, principalmente, responsabilidade para perceber quando a nossa mensagem não chegou da maneira que imaginávamos.

Em uma palestra, por exemplo, o orador tem maior controle sobre o discurso, porque teve a oportunidade de preparar a mensagem, ler, analisar, avaliar.

Entretanto, se a comunicação se dá em uma conversa, praticamente não temos controle sobre a mensagem, porque existe um diálogo que precisa fluir naturalmente. É nesse momento que entra uma habilidade frequentemente esquecida quando falamos em comunicação:

escutar.

Parece contraditório, mas um bom comunicador precisa aprender a falar e a ouvir.

Aliás, talvez uma das maiores dificuldades da comunicação moderna seja justamente essa: temos muita gente querendo ser ouvida e pouca gente realmente disposta a ouvir.

Enquanto o outro fala, muitas vezes não estamos escutando. Estamos preparando a resposta.

Esperamos uma pausa para interromper.

Pensamos no que vamos dizer em seguida.

Tentamos provar que temos razão.

E, quando fazemos isso, podemos até estar presentes fisicamente em uma conversa, mas estamos ausentes na comunicação.

Escutar não significa concordar.

Escutar significa compreender.

É tentar descobrir o que o outro realmente quis dizer antes de decidir como vamos responder.

Isso pode evitar discussões, corrigir mal-entendidos e até transformar relacionamentos.

Talvez você já tenha vivido uma situação em que uma conversa começou pequena e terminou em um grande conflito. Muitas vezes, o problema não estava apenas nas palavras utilizadas, mas naquilo que cada um entendeu a partir delas.

Por isso, depois de falar, vale fazer uma pergunta simples:

“Foi isso que você entendeu?”

Essa pequena pergunta pode parecer desnecessária, mas demonstra algo muito importante: interesse genuíno em ser compreendido.

E existe outra pergunta que também merece nossa atenção:

“O que a minha comunicação está produzindo?”

Porque palavras produzem alguma coisa.

Podem aproximar ou afastar.

Podem esclarecer ou confundir.

Podem encorajar ou desanimar.

Podem resolver um problema ou criar outro.

Podem construir confiança ou destruí-la.

Por isso, comunicar bem não é simplesmente encontrar as palavras certas. É compreender que toda comunicação produz algum tipo de consequência.

E aqui talvez esteja uma das maiores lições de tudo o que conversamos nestas últimas semanas:

comunicar não é apenas falar. É estabelecer uma ponte entre pessoas.

Quem fala precisa conhecer a si mesmo.

Precisa saber o que deseja comunicar.

Precisa escolher como transmitir.

Mas também precisa estar disposto a descobrir se a mensagem realmente chegou ao outro lado.

Porque, no final das contas, não comunicamos apenas aquilo que dizemos.

Comunicamos também aquilo que fazemos, a maneira como ouvimos, a forma como reagimos e até aquilo que escolhemos não dizer.

Talvez por isso a comunicação seja uma das habilidades mais importantes — e, ao mesmo tempo, mais negligenciadas — da nossa vida.

Passamos anos aprendendo matemática, português, história e tantas outras disciplinas.

Mas continuamos aprendendo, muitas vezes pela tentativa e pelo erro, a conversar com quem amamos, a discordar sem ferir, a apresentar uma ideia, a liderar uma equipe, a pedir desculpas e a dizer aquilo que realmente precisamos dizer.

Comunicação é prática.

E toda prática começa com consciência.

Quem fala?
O que fala?
Como fala?
E o que acontece depois que fala?

Talvez você não consiga controlar tudo aquilo que o outro fará com a sua mensagem.

Mas pode escolher cuidadosamente aquilo que colocará no mundo através das suas palavras.

E isso já é uma enorme responsabilidade.

Obrigado por me acompanhar em mais uma coluna do Correio do Povo do Paraná.

Até a próxima!