A escola como depósito? A parceria que muitos pais insistem em ignorar

A apresentadora Sabina Simonato gerou polêmica nacional ao criticar a liberação antecipada de estudantes durante os jogos da Copa do Mundo de 2026. Seu argumento era logístico: pais que trabalham precisariam buscar os filhos. Após a repercussão negativa, pediu desculpas, afirmando que não quis dizer que escolas são depósitos. O estrago já estava feito. Não convenceu.

O leitor pode achar o tema anacrônico, afinal o “hype” da Copa, já passou, mas, professor que sou, convivo diariamente com esse debate. A visão utilitarista da escola não é novidade.

Na pandemia de Covid 19, especialistas recomendaram o fechamento das escolas para conter o vírus (salas de aula são ambientes insalubres). Ainda assim, muitos pais reclamaram, dizendo que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos, menosprezando os riscos de contágio.

É preciso evitar generalizações: estas linhas retratam uma parcela, não a totalidade dos pais. Muitos foram/são parceiros exemplares.

A insatisfação dos professores dirige-se àqueles que encerram o acompanhamento da aprendizagem com a matrícula. Não comparecem às reuniões, não retiram boletins, só aparecem no fim do ano se o filho está em risco de reprovação. Há os que se recusam a assinar provas. Já ouvimos mães declararem-se contra as férias, preferindo os filhos na escola.

A cantora Luiza Possi ilustra o descompasso: chamada pela escola para tratar do comportamento do filho, respondeu que “a escola que se vire”, pois tinha os mesmos problemas em casa e não reclamava à escola. Esse comportamento é comum. Muitos são os pais que se irritam quando convocados.

Muitos pais não orientam agendas, cadernos, horários de estudo, nem frequentam reuniões. Há pais que nem sabem a série dos filhos. Não se trata de falta de estudo: conhecemos responsáveis com pouca escolaridade, mas extremamente zelosos. Este escriba teve pais assim.

Por isso a fala de Sabina incomodou tanto: ela reduziu a escola a um serviço, quando ela é, antes de tudo, espaço de formação. Ao tratar a saída antecipada como problema logístico, revelou uma visão distorcida que muitos pais compartilham.

Professores querem parceria. Estudos comprovam que alunos cujos pais são participativos obtêm melhores resultados (em notas, comportamento e autoestima). A escola é importante demais para ser relegada a papel secundário. Não queremos que os pais resolvam tudo sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.