A humanidade desumana e o papel das Ciências Humanas

Há alguns dia li um post em uma rede social que considerei de uma verdade profunda. Dizia o post que

Há alguns dia li um post em uma rede social que considerei de uma verdade profunda. Dizia o post que “Educação não é levar o estudante a decorar que Hitler e a política nazista por ele conduzida à frente do Estado Alemão matou 6,5 milhões de judeus, mas, levar o aluno a entender como os alemães permitiram que uma figura como Hitler ascendesse ao poder e como a maior parcela do povo alemão aceitou que o extermínio de judeus era necessário e aceitável. Dizia ainda o post, que uma educação no sentido pleno da palavra era capacitar o estudante a perceber quando um fato do passado começa a se repetir no presente”. Numa época em que a propagação de fake news se tornou uma importante ferramenta para a manipulação da sociedade e até mesmo para a eleição de governantes, cada vez mais pessoas que ocupam cargos de liderança ou seus tele-guiados se revoltam contra a área de Ciências Humanas, que, obviamente estuda a humanidade e a forma como esta se organiza em sociedade.

Tomo como exemplo, a disciplina de Geografia, da qual sou professor, que tem no espaço geográfico o seu objeto de estudo. Sendo o espaço geográfico, o espaço transformado, construído e reconstruído pela sociedade humana, torna-se impossível se referir a tais transformações sem estudar as relações de capital e trabalho investido na transformação das paisagens, suas motivações e grupos beneficiados, bem como o prejuízo ambiental. Sendo o Estado, o agente que de forma direta ou indireta, promove ou estimula as ações de indivíduos e grupos empresariais sobre o espaço, não estudar as políticas de Estado indutoras/estimuladoras das ações de transformação e ocupação/utilização do espaço a torna um saber incompleto ou manco. Da mesma forma, a disciplina de História ao levar o estudante a conhecer e refletir sobre fatos do passado para que este perceba que o país e a sociedade que hoje somos (para bem ou para mal) é resultante de um processo histórico, ou ainda, as disciplinas de Sociologia e Filosofia que estudam a forma como a sociedade se organiza e levam o estudante a refletir sobre o papel do indivíduo em sociedade e o significado da vida.

Paulo Freire (1921-1997) nos disse que a Educação é a ferramenta mais poderosa que existe, pois por meio do conhecimento, é possível capacitar as pessoas a mudar o mundo. Sabendo disso os opressores/promotores e defensores do atraso social ao longo da história negaram/negam o acesso das classes desfavorecidas ao conhecimento. Dessa forma, consideram haver algo errado, uma inversão da “ordem natural” da sociedade quando os “filhos de porteiros” bem como os afro-descendentes ingressam na universidade. O “cidadão de bem” sente mal estar, um grande desconforto, quando tais pessoas “do andar de baixo”, adquirem o conhecimento, pois tornam-se capazes de  vê-lo “nu”, ou seja, perceber o seu verdadeiro caráter. Afinal, em nossa sociedade, é algo bastante comum, os acusadores da corrupção, seja ela, política, financeira ou da moral serem pegos com a boca na botija praticando aquilo que tanto criticam. O que realmente importa para essa gente é a aparência e não a essência e, pensam ser sinal de inteligência, o que é na verdade hipocrisia.

Não falta também quem diga defender os ensinamentos de Jesus Cristo, a pátria, a família, os bons costumes e que sob as vestes desse falso moralismo, se escondem almas que pouco ou nada têm de patriotismo ou de cristãs, pois praticam atos contrários aos que tanto afirmam. Considero de uma hipocrisia muito grande invocar a Jesus e agir de forma inversa aos seus ensinamentos. Não acredito em uma fé (teórica) desprovida de verdadeira prática (atitudes diárias). A Igreja não é um prédio. É a sua forma de ser e viver. Penso que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo deve exercer na Terra o papel que ele faria caso aqui estivesse! E Jesus estaria entre os sem-terras; entre os favelados; entre os sem tetos; entre os desempregados; entre os trabalhadores explorados; entre os pobres; entre os famintos; entre os injustiçados! Jesus era um revolucionário; um contestador do sistema injusto que encontrou na Terra e por isso foi condenado, torturado e morto! Hoje há muitos que se dizem cristãos, mas, que a julgar pelas suas atitudes também estariam entre os que pediriam e comemorariam a condenação de Jesus!

Enfim, parafraseando Renato Russo (1960-1996) quando disse que “a humanidade é desumana, mas que ainda temos chance…, devemos recuperar a coragem que alguém nos roubou e voltar a acreditar que mudar o mundo é possível…”.  Longa vida às Ciências Humanas contra toda forma de opressão e obscurantismo!

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