Carta aberta aos/às prefeitos(as)

Vivemos um triste e obscuro tempo. A polarização que há muito tempo tomou conta de nosso país ideologizou até mesmo

Vivemos um triste e obscuro tempo. A polarização que há muito tempo tomou conta de nosso país ideologizou até mesmo aquilo que não tem ideologia, o vírus da Covid 19 que ameaça a vida de todas as pessoas independentemente de sua ideologia ou classe social. Em todos os períodos em que a humanidade passou por epidemias/pandemias foram as autoridades da Ciência que a conduziram para o livramento do mal que a todos atingia, importa ouvi-las. Negar/subestimar a doença e a forma como ela se propaga, como se ela fosse apenas um pensamento ruim, é uma atitude irracional e irresponsável e, em todos os tempos conduziu ao desastre. O vírus é real e espreita o lar de todos. Importa agir com elevado humanitarismo, pois, cada vida importa e salvar vidas é a mais importante e nobre missão que o destino lhes confiou nesse triste momento histórico, que para sempre será lembrado, como o foram outros momentos de epidemias/pandemias pelas quais a humanidade passou. Os cientistas e historiadores, futuramente se debruçarão sobre os dados acerca da transmissibilidade do vírus, as ações tomadas e, as que deveriam e não foram tomadas por quem estava em condições de decidir, além, é claro,  da macabra contabilidade das mortes, das quais, muitas poderiam ser evitadas.

Sou também Professor, mais, especificamente da área da Geografia. Na Geografia há um lema muito apreciado por seus profissionais e que diz: “Pense globalmente, aja localmente”. Esse lema afirma que se todos pautarmos nossas ações para tornar melhor o local onde vivemos, o mundo como um todo será melhor. Essa é a missão que lhes cabe, nesse momento, de forma elevada a enésima potência. Novamente convido-os/as a se desarmar de suas ideologias partidárias e lhes digo, que também eu venho desarmado das minhas (embora não pertença aos quadros de nenhum partido político), pois, venho como cidadão e como educador e, que tal como qualquer outro, conhece a fundo a realidade das escolas e o comportamento dos estudantes (crianças e adolescentes). Vossas Senhorias sabem que os adultos não estão se comportando e tendo os cuidados necessários para evitar o contágio, como esperar isso de crianças e adolescentes? Afinal, eles não atingiram o grau de amadurecimento, de consciência sobre o risco que os cerca, além disso, são muito dispersivos, distraídos e sociáveis, carentes de contato humano, o que dificulta manterem o distanciamento. As salas de aulas são mal ventiladas e, a variante P1 de Manaus e a variante indiana B1 (que já chegou ao país) são extremamente contagiosas. As máscaras de tecido (mais utilizadas) oferecem apenas 70% de proteção e, em todos os locais onde as aulas presenciais voltaram, a taxa de transmissão e mortes aumentou (não sou eu quem diz isso, são os cientistas).

Entendo que Vossas Senhorias estejam em “saias justas” que lhes são impostas pelo Governador do Estado e pelo Presidente da República. Entendo que ter boas relações com estas autoridades é importante para trazer recursos para vossos municípios. Entendo também que muitas pessoas da sociedade os/as criticarão por tomar medidas de segurança, mas, importa ouvir as vozes mais sensatas, as da Ciência. Mas, entendo também, que são vocês que serão responsabilizados(as) pelo aumento dos contágios que as autoridades da Ciência dizem que irão ocorrer com a retomada das aulas presenciais, pois, assim foi em Manaus e em vários locais do Brasil e do Mundo. Como educador, digo que deficiências na aprendizagem poderão ser recuperadas futuramente. Como pai, digo que prefiro encaminhar meus filhos à consultas psicológicas a arriscar suas vidas e as nossas mandando-os à escola para ter aula presencial, afinal, precisamos estar vivos para encaminhá-los na vida. O Governador do Estado não quer ficar mal com o Presidente da República e coloca nas suas mãos a decisão do retorno às aulas e, inclusive, indiretamente os/as pressiona, mas, a responsabilidade pelas mortes de estudantes, pais e demais familiares com quem os estudantes convivem serão “debitadas nas vossas contas” em termos judiciais e de consciência. O mesmo Governador (surrealmente) está tomando medidas restritivas no que lhe cabe responsabilidade (sobre a circulação de pessoas em órgãos do Governo), alguma dúvida sobre quem recairá a responsabilidade? Quanto ao Presidente está tendo suas ações/inações quanto à pandemia em curso sendo analisadas pela CPI, nesse momento, deixemo-lo de lado.

Lembro que 1098 pessoas esperam por leitos de Covid no estado, 543 esperam leitos de UTI e que apenas 16,5% da população foi vacinada e acredita-se que a terceira onda será catastrófica. Não basta vacinar os educadores (cuja maioria ainda nem recebeu a primeira dose) que somente estarão plenamente imunizados daqui a 120 dias. A volta às aulas somente será relativamente segura com 70% da população vacinada. Nenhuma carência/transtorno psicológico é maior do que a falta de um ente querido (pais, avós, etc.) para a criança e/ou adolescente. A volta às aulas presenciais deve ocorrer quando houver segurança para todos(as). Vossas Senhorias, diferentemente do Presidente e do Governador, vêm de perto a tragédia ocorrendo e, muitas vezes, conhecem as pessoas que morrem e, cuja falta a comunidade se ressente. Reafirmo que salvar vidas é a mais nobre missão que o destino lhes confiou. Importa pecar pelo excesso, mas, nunca pela falta de esforços e por fazer ouvidos moucos à Ciência. Só a Ciência e os esforços coletivos de toda a sociedade apressarão o fim da pandemia. Cabe-lhes conduzir a comunidade nesse difícil trajeto de escuridão! Sejam luz!