A morte da verdade

                  Já escrevemos algumas vezes neste espaço sobre o tema da pós-verdade. A ele retornamos, pois, essa é a

 

                Já escrevemos algumas vezes neste espaço sobre o tema da pós-verdade. A ele retornamos, pois, essa é a preocupação central do livro da crítica literária estadunidense Michiko Kakutani (1955). Impossível ler a obra sem ver semelhanças entre o cenário de fundo estadunidense e o brasileiro, ou seja, a campanha e o governo de Donald Trump e de Bolsonaro, pois, se fossem criações literárias estariam classificadas como distopias. O livro cita um comercial da CNN que mostra a foto de uma maçã e a voz de um narrador que afirma: Isto é uma maçã. Algumas pessoas vão tentar dizer que é uma banana. Talvez elas gritem repetidas vezes: ‘banana, banana, banana’. Talvez elas escrevam BANANA em letras maiúsculas. Talvez você até mesmo comece a acreditar que é uma banana. Mas não é. Isto é uma maçã. Sobre isso, a autora cita a frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan: Todo mundo tem direito de ter suas próprias opiniões, mas, não seus próprios fatos.

Vivemos um momento em que uma parcela da sociedade acredita que não há história, nem ciência ou verdade, tudo é mera opinião. Verdades científicas passaram a ser contestadas tendo como argumentação o senso comum. Se a soma de dois mais dois é igual a quatro e do ponto de vista restrito da matemática isto é uma verdade universal inquestionável. Apontar resultado diferente soaria ridículo, porém, não faltam pessoas a falsear a história, a verdade e a apontar a extensa pesquisa de intelectuais como mera opinião. O intelectual lê centenas de artigos e livros, não raro dedica toda sua vida para entender um objeto de estudo, e, um sujeito que não leu mais que gibis em sua adolescência e revistas/sites de fofoca na idade adulta, sentindo-se empoderado pelo computador/celular ligado à Internet o contrapõe sentindo-se o dono da única verdade. A dele!  Não é à toa que temos os terraplanistas, os negadores do holocausto, do aquecimento global, da evolução das espécies, ou ainda, os que afirmam que o nazismo era de esquerda, que os governos petistas (neoliberais) instalaram o socialismo no país e quebraram o Brasil, quando à luz da razão não é possível afirmar nada disso. Nas palavras de Umberto Eco (1932-2016): a Internet deu voz a uma legião de imbecis com o mesmo direito à fala que um ganhador do prêmio Nobel e promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.

             As pessoas se isolam dentro de suas comunidades virtuais das redes sociais, conversam geralmente com as pessoas que pensam de igual forma e, escolhem no supermercado midiático a versão da verdade que lhe é mais palatável. Quando há o encontro com aquele que tem uma opinião divergente, os insultos ocupam o lugar da argumentação e, quando esta se realiza, demonstra a pobreza intelectual característica de quem despreza a razão. Há na atualidade um desprezo à ciência, à universidade, aos professores, ao poder Judiciário, à imprensa livre. Trump nos Estados Unidos profere a média de 7,6 mentiras diárias e ataca as instituições (a imprensa, o poder legislativo, o poder judiciário, etc.) e nega a veracidade de dados oficiais. Segundo Kakutani isto tem erodido fortemente a democracia estadunidense. Da mesma forma, o clã Bolsonaro age no Brasil. O filho do presidente (Eduardo Bolsonaro) afirmou que bastava um jipe e um soldado cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal, recentemente afirmou que um novo AI-5 seria a resposta caso as ruas fossem tomadas pela oposição. Não há uma pesquisa sobre quantas mentiras o presidente brasileiro conta diariamente, mas, é por todos sabido a sua prática de culpar a imprensa alegando ter sido mal interpretado, ou ainda, por se desculpar à tarde ou à noite pelo que disse de manhã.

Tanto Trump como Bolsonaro utilizaram em suas campanhas frases curtas exortando valores tradicionais, além do medo e do ódio, e, fizeram uso de fake news direcionadas por bots a um público específico previamente selecionado pela inteligência artificial. Steve Bannon, a mente por trás da Cambridge Analytica ajudou a eleger Trump e tem ligações com o clã Bolsonaro. A Cambridge Analytica trabalha com mineração de dados e a divulgação de mensagens específicas por meios de bots que interagem como se humanos fossem com as pessoas escolhidas reforçando nelas ideias e convicções pré-constatadas dentre elas o medo e o ódio ao imigrante nos Estados Unidos, e o medo e o ódio aos comunistas, aos petistas, aos esquerdistas no Brasil. Kakutani fala em seu livro que as eleições que elegeram Trump foram influenciadas pela Rússia por meios cibernéticos ao disseminar fake news contra Hillary Clinton e promover Trump por meio da disseminação de mensagens sobre questões como imigração, religião e raça visando ampliar a divisão entre os eleitores que não têm o hábito de averiguar a autenticidade da informação. Segundo Kakutani, o alvo ideal das fake news não é o fascista convicto ou o comunista, mas, o cidadão comum, que não tem o hábito de checar a veracidade da informação que recebe e que, assim pode ter sua visão de mundo moldada conforme desejam os manipuladores. Triste época! Concluo indicando fortemente a leitura desta obra!

Sugestão de boa leitura:

 

Título: A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump.

Autor: Michiko Kakutani.

Editora: Intrínseca, 2018, 270 p.

Preço: R$ 19,90 – R$ 23,90.

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