A morte de Olivier Bécaille

Não tenho predileção por livros de contos, tanto é assim que até o presente momento não havia trazido nenhuma resenha/indicação

Não tenho predileção por livros de contos, tanto é assim que até o presente momento não havia trazido nenhuma resenha/indicação de livro desse formato neste espaço. Como acredito que gosto se aprende, tenho enfrentado minha resistência lendo alguns. Creio que isso ocorra porque gosto do envolvimento que uma trama profunda promove e isso ocorre em um número maior de páginas, porém, Emile Zola (1840-1902) o consagrado escritor francês que é também considerado o Pai da escola literária naturalista quebrou o meu paradigma, pois, provou que também é possível haver profundidade em contos literários. É bem verdade que os contos da obra em questão estão mais para novelas dado o seu número de páginas. Meu primeiro contato com a obra de Zola foi por meio de uma adaptação para o cinema de sua mais célebre obra intitulada Germinal, a qual tenho em minha biblioteca, mas, ainda não a li. O livro “A morte de Olivier Becaille” é composta por três contos, sendo o primeiro o que dá nome ao mesmo seguido de “Nantas” e “Inundação”.

            Em “A morte de Olivier Bécaille” Zola discorre sobre a vida de um homem que, apesar de não ter uma boa aparência se casa com uma mulher jovem e bela. Ele sabe que ela aceitou se casar com ele por não ter outra opção ante a pobreza de sua família. Olivier é um homem maduro e sua situação econômica não é nenhum pouco confortável. O casal foi morar em Paris num prédio de apartamentos humildes quando este é acometido pela catalepsia. A catalepsia é uma condição em que a pessoa fica momentaneamente incapaz de mover-se e de nem mesmo falar sendo que a respiração e a pulsação ficam tão fracas que muitas vezes é confundida com a morte. No passado muitas pessoas foram enterradas desta forma e, ao abrir o caixão anos depois, se descobre que o corpo se mexeu, ou seja, fora enterrado com vida. Olivier ouve sua mulher desesperada, os vizinhos que vêm ajudar, mas, não consegue se comunicar. Um médico é chamado, mas não lhe dá atenção e atesta a morte. Vem a preocupação com enterro, a conta de quanto tempo durará o velório e a necessidade de reagir antes de ser sepultado, mas, não consegue. Vem a missa, as últimas despedidas de sua bela esposa amparada por um vizinho solteiro, o caixão é fechado. No caixão fechado, Olivier escuta a terra sendo jogada. Luta pela vida, enfim acorda, precisa sair…

            No segundo conto, Nantas é um jovem ambicioso que, tendo ido morar em Paris com grande esperança de obter poder e riqueza com a grande capacidade que julga possuir, vê seus planos serem frustrados. Pensa em se matar com a arma que possui, no entanto, sua vizinha que trabalha como governanta na mansão de um barão, lhe faz uma proposta. A filha do Barão engravidou de um homem casado e precisa de um homem para dar sobrenome à criança e para não macular o sobrenome da família e nem causar grande humilhação ao patriarca. Ele aceita, o Barão contrariado, pela origem social de Nantas e pela forma como este entra na família não tem o que fazer, o aceita e repassa a herança da mães desta para ele. Nantas multiplica o dinheiro, faz uma carreira meteórica e chega a Ministro de Estado. O casamento de fachada do casal tinha como acordo verbal a separação de corpos e Nantas se apaixona pela bela mulher de gênio difícil, que o despreza. Descobre então que somente o dinheiro, o poder e a fama podem não ser suficientes para uma vida feliz…

            Em Inundação, Zola narra a vida feliz de uma família francesa que reside numa fazenda tida pelo patriarca como abençoada por Deus, pois, todo infortúnio que atingiu seus vizinhos jamais ocorreu em suas terras, nas quais moravam seus filhos e filhas e seus cônjuges, mas, ocorrem chuvas torrenciais por dias seguidos e as águas do rio chegam a um patamar jamais alcançado na história do local. As perdas materiais são recuperáveis, pensa o patriarca, porém, há dentre as perdas o que jamais poderá ser recuperado…

            Li que um livro de contos é como um nocaute no boxe, ou atinge em cheio o leitor ou, jamais conseguirá vencer por pontos. Vencer por pontos é para as novelas, os romances. Sinto-me nocauteado e deixo a dica.

Sugestão de boa leitura:

Título: A morte de Olivier Bécaille.

Autor: Émile Zola.

Editora: L&PM, 1997, 128 pág.