A sociedade do cansaço

Professor da rede pública estadual formado no PDE 2007/2008; Especialista em Metodologia do Ensino Geográfico e Realidade Brasileira

            Byung-Chul Han (1959) é um filósofo e ensaísta sul-coreano. Han é também professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma extensa obra marcadamente crítica à atual sociedade do trabalho e à forma como a tecnologia é utilizada no processo produtivo e suas consequências no campo social. O livro “A sociedade do cansaço” é pequeno quanto ao número de páginas, porém, denso quanto ao conteúdo. Tenho o hábito de grifar e fazer anotações à lápis, quando concluí a leitura observei que raros eram os parágrafos que não haviam grifos (risos). O filósofo sul-coreano afirma que cada época teve suas epidemias (virais ou bacteriológicas). Também nós fazemos parte da história, pois, a pandemia de Covid 19 será alvo de estudo de futuras gerações de estudantes e cientistas.

            Han faz uma comparação entre a sociedade anterior e a atual. Para o filósofo, embasado em Michel Foucault (1926-1984), a sociedade anterior era dominada pela negatividade e baseava-se no método de “vigiar e punir”. Han afirma que a sociedade contemporânea é marcada pelo excesso de positividade, ou seja, é a sociedade do desempenho, da alta produtividade. Se na sociedade anterior ele tinha um patrão ou funcionário (apontador) especialmente designado que controlava o seu tempo exigindo dele a maior produtividade possível, na sociedade atual, ele é o apontador de si próprio. Pensa ter liberdade, afinal, a empresa não determina seu horário de trabalho ou o libera realizar seu trabalho em home – office, no entanto, a moeda de troca exigida é a produtividade, melhor, a alta produtividade. O sujeito entra numa neura de demonstrar competência e muitas vezes exige de si próprio, mais do que o próprio patrão ou apontador o faria. Os capitalistas, obviamente, já constaram que dar a “liberdade” para o funcionário tendo como contrapartida a produtividade é altamente vantajoso.

            Ao se ver reconhecido como funcionário de grande produtividade, este procura manter o nível de produção ou superá-lo, pois, é seu dever, depende somente dele e a empresa é tão boa. Mas este excesso de “positividade” em buscar manter a produtividade ou superá-la, leva-o ao esgotamento físico e, principalmente mental. O trabalhador se torna escravo e tem como seu feitor ele próprio. O autor cita a frase “yes, we can” (sim, nós podemos) do ex-presidente estadunidense Barack Obama como um grande exemplo dessa ideologia. Sim, posso conseguir o que eu quiser, basta me dedicar! E isso, pode funcionar algumas vezes. Pode funcionar para algumas pessoas. Mas, nem sempre e nem para todas as pessoas. O resultado é a frustração, a depressão, enfim, o adoecimento físico e, principalmente mental.

            O autor afirma que a sociedade atual está perdendo a capacidade da contemplação, pois, não mais se aprofunda naquilo que vive e sente pelos sentidos. Os indivíduos sabem um pouco de tudo, mas, nada com profundidade. Conseguem realizar várias tarefas simultaneamente, mas, não conseguem abstrair, elaborar um raciocínio profundo acerca de um problema, ou da leitura de uma obra. Evitam o tédio e vivem suas vidas de forma rasa, seja nas relações sociais ou na busca do conhecimento. Segundo Han, o tédio profundo é um processo criativo, pois, em meio a ele ocorre a contemplação e declara “se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual”. Sobre a violência que marca a nossa sociedade, Han conclui que ela é doença com causa neural. A cobrança que a sociedade faz (ou que o próprio indivíduo faz sobre si mesmo) quanto à busca de um grande desempenho produtivo mantendo-se altamente competitivo leva ao adoecimento. Enfim, para Han, vivemos numa sociedade do excesso ou da falta, é  tudo ou nada e, como tal administra-se doses cavalares de estímulos, o indivíduo é competente ou fracassado (não há meio termo). Ser normal é ser uma pessoa altamente competente, produtiva, porém, esvaziada, adoecida! Se você ainda é capaz de contemplar, de sorrir, de viver alegremente,  você não está bem, pois, foge ao padrão de normalidade!

Sugestão de boa leitura:

Título: A sociedade do cansaço.

Autor: Byung-Chul Han.

Editora: Vozes, 2015, 136 pág.

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