Já afirmei nesse espaço que o Brasil vive uma democracia de baixa densidade. Não por acaso: nenhuma democracia plena floresce em uma sociedade tão desigual. O Índice de Gini de 2025 nos coloca como a quarta nação mais desigual do planeta e isso não é fatalidade, é fruto de escolhas que sempre privilegiaram poucos.
Desde o período colonial, o Brasil foi gerido por elites que nunca ousaram construir um projeto de nação soberana e includente. Atribuir a culpa a este ou àquele presidente é uma cortina de fumaça que esconde o essencial: o sistema político.
O sistema de Presidencialismo de Coalizão obriga o Executivo a costurar maioria no Congresso. E o Congresso, historicamente, é dominado por forças conservadoras. Presidentes progressistas que chegam ao Planalto encontram bancadas que impõem preço alto pela governabilidade. O resultado são governos do possível, não do necessário, administrações que fazem o que podem, não o que seria preciso para reverter a exclusão social.
Basta olhar as urnas: mesmo quando o eleitorado elege um nome de mudança para o Planalto, reconduz ao Congresso a bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) que representa o latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco barra reformas populares e freia qualquer redistribuição de renda, terra e poder.
O Brasil só avançará quando o Congresso refletir as vozes do povo trabalhador. Mas o trabalhador vive imerso em urgências (carestia, desemprego, sobrevivência) e o subdesenvolvimento limita o acesso a uma educação crítica para a tomada de consciência social.
Na democracia de baixa intensidade, sob o neoliberalismo, o voto nos dá a ilusão de decidir. Na verdade, o capital, o agronegócio, a indústria de armas e a mídia elegem a maioria parlamentar. Sem o Congresso, o Planalto fica acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.
O Congresso é fábrica de leis para os mais ricos: acelera reformas neoliberais quando o Executivo alinha, e freia governos progressistas. Essa dinâmica nunca foi tão explícita.
Por isso, como povo trabalhador, precisamos olhar para o Parlamento com a mesma atenção que damos ao Planalto. É lá que se decide se teremos um governo do possível ou do necessário.
Que o povo ocupe não apenas as ruas, mas também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.



