O cortiço

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913) foi um romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista, jornalista, desenhista e pintor. O autor de

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913) foi um romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista, jornalista, desenhista e pintor. O autor de O Mulato (1881) e Casa de Pensão (1884) tem no livro O Cortiço (1890) sua obra-prima. A obra de Aluísio Azevedo pertence ao gênero naturalista (uma radicalização do realismo) que baseia-se na observação fiel da realidade e no empirismo. Azevedo não é somente um ficcionista, é um cientista social, pois sua literatura tem como base personagens tido como comuns entre aqueles que povoavam os inúmeros cortiços da cidade do Rio de Janeiro naquele distante século XIX. Aluísio acreditava apenas no que era cientificamente comprovável e, adepto do determinismo, acreditava que  o homem sofria as influência do meio em que vive. O determinismo postulava que fatores como a raça, o meio social e o momento histórico determinavam as atitudes e o caráter das pessoas. Hoje sabemos que o homem sofre as influências do meio, mas, que não é um ser passivo, pois,  pode transformá-lo de acordo com suas necessidades (possibilismo).

            Na obra, o protagonismo cabe ao cortiço que se constituía numa sucessão de pequenas casas ou quartos num mesmo terreno para a moradia de pessoas pobres. O autor apresenta como uma das personagens principais o capitalista João Romão, um homem sem escrúpulos no que tange a exploração econômica de seus subordinados ou com quem realiza negociatas. Bertoleza é uma escrava de ganho e, como tal, repassa dinheiro para o seu senhor e poupa parte dele para a compra de sua alforria. O senhor de escravos (proprietário de Bertoleza) morre e João Romão até então amigo de Bertoleza, passa a viver com esta e a cuidar de seu dinheiro. Cobrado por Bertoleza, João Romão falsifica um documento de alforria para enganá-la e fica com seu dinheiro, o qual utiliza para construir o cortiço. Miranda é dono de um sobrado vizinho ao cortiço de propriedade de João Romão. Miranda casou-se por interesse, sua esposa (Dona Estela) é infiel, porém, Miranda a suporta, pois, seu objetivo de vida era ser rico. Miranda compra um título de barão junto à Coroa brasileira.

            João Romão compra uma pedreira junto ao cortiço e contrata o português Jerônimo, que, juntamente com sua esposa Piedade (também portuguesa) muda-se para o cortiço. No cortiço, Jerônimo atrai os olhares da fogosa Rita Baiana, que se recusa a casar (com homem nenhum) pelo desejo de continuar a ser uma mulher livre. Jerônimo se apaixona por Rita Baiana, o que desagrada Firmo, o homem com quem Rita Baiana tem um caso de longa data. Jerônimo que era um homem sério e dedicado à família (esposa e filha) e também muito trabalhador, torna-se preguiçoso, festeiro e adúltero. Sua relação com Rita Baiana acaba ocasionando uma trágica briga com o capoeirista Firmo. João Romão se incomoda com o baronato de Miranda, o qual, por sua vez, em crise financeira promove o arranjo do casamento de sua filha Zulmira com o endinheirado João Romão. Para casar-se com Zulmira, João Romão precisa livrar-se da escrava Bertoleza e suborna o delegado de polícia para que procure o herdeiro de seu ex-proprietário para que este a retome e a conduza de volta para a senzala.

            O cortiço, no qual a trama acontece, é um microcosmos da sociedade da época vivida por Aluísio Azevedo (o Rio de Janeiro do século XIX). Os acontecimentos são ficticiamente ambientados no bairro de Botafogo. No cortiço, homossexuais, lésbicas, mascates, escravos, ex-escravos, mulheres abandonadas pelos maridos, mães solteiras, curandeiros, criminosos, alcoólatras e gigolôs se fazem presentes. Na rotina diária do cortiço,  homens e mulheres exercem sua sexualidade livre, porém, não como na atualidade se faz, ao erguer uma bandeira e contrariar regras impostas pela sociedade ou pela igreja. O autor mostra as personagens numa condição animalizada e, desta forma, movidos pelos seus instintos agem naturalmente. No cortiço, há várias personagens que demonstram possuir desvios das condições mentais consideradas normais. Os traumas de tais personagens via de regra se referem às duras condições de sobrevivência que a miséria lhes impôs, como exemplo, a mulher que abandonada pelo marido se entrega ao alcoolismo e que sofre abusos sexuais quando se encontra nessa condição e até uma personagem masculina que vive na extrema miséria, mas, tem uma fortuna guardada em seu quarto no cortiço. João Romão, o inescrupuloso proprietário do cortiço, aparece como benfeitor (abolicionista) perante  a sociedade, mas, é um sujeito disposto a tudo para defender os seus interesses. A tragédia marca o fim da obra.

            O cortiço caiu na prova de literatura do vestibular que fiz naqueles distantes anos 1990 (Só havia lido um resumo da obra em preparação). Fato que aumentou a curiosidade acerca desse livro. Li somente agora, devia tê-lo feito antes!

P.S. Há também o filme (que assisti), porém, a adaptação não é tão boa quanto o livro!

Sugestão de boa leitura:

Título: O cortiço.

Autor: Aluísio Azevedo.

Editora: Panda Book, 2017, 1ª edição, 304 pág.

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