Reputação: um eu fora do meu alcance

          O professor de Ética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) Clóvis de Barros Filho

          O professor de Ética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) Clóvis de Barros Filho lançou em parceria com o professor e doutor em comunicação e política Luiz Perez – Neto (Universidade Autônoma de Barcelona) o livro “Reputação: um eu fora do meu alcance”. Na obra, os autores informam o leitor de que a palavra reputação deriva do latim reputatio e que remonta a Roma Antiga. Seu significado é opinião, conceito ou estima que temos sobre alguém ou alguma coisa. Afirmam que a reputação não depende de nós, mas, de fluxos de opiniões da sociedade por meio das quais se forma a nossa imagem pública. A reputação pode-se descolar parcial ou completamente da realidade de seu objeto, e por ingenuidade ou falta de malícia, o que se pensa e o que se fala de uns e de outros pode não ter nada a ver com o efetivo respeito a princípios e normas de conduta. Os autores citam Abraham Lincoln (1809-186v5) quando disse: “o caráter é como uma árvore, e a reputação como sua sombra. A sombra é o que nós pensamos dela. A árvore é a coisa real”. Dessa forma, o caráter é desenvolvido ao longo de toda uma vida, a reputação pode ser definida em um momento infeliz com ações equivocadas ou palavras impensadas.

A reputação é também importante no mundo business, pois pode definir o sucesso ou o fracasso de uma empresa. Todos verificam se ela cumpre os prazos de entrega dos produtos/serviços, se dá suporte (garantia) aos seus clientes, pratica preços justos, cuida do meio ambiente e se não oferece condições degradantes de trabalho aos seus funcionários. É diferente quanto ao indivíduo? Pesquisas mostraram que crianças de dois anos já se preocupam com suas reputações e moldam seus comportamentos com o objetivo de melhorá-las e que crianças do Ensino Fundamental já têm um pensamento muito crítico quanto ao seu status social e reputação. No mundo adulto, se o indivíduo exerce uma função pública, ele tem a obrigação de prestar contas de seus atos, afinal, não basta ser honesto, tem que parecer honesto. O discurso e o modo de agir de tal cidadão serão confrontados o tempo todo com a ética. Então, como ter uma boa reputação empresarial ou individual? É preciso ser ético, porém, é humanamente impossível ser 100% ético em todos os momentos. Erros e deslizes ocorrem como também acertos e melhorias. Buscamos nos tornar mais humanos, mas, somos imperfeitos, inacabados. Também a ética é dinâmica e não há um manual de como se portar ad infinitum.  Os valores mudam no espaço e no tempo. Dessa forma, o moralismo é uma imposição externa. Uma invasão da soberania interior de cada ser a ter a sua própria individualidade, pois representa os valores coletivos de um grupo, porém, não são universais.

Sabedores que somos de que é impossível sermos éticos na integralidade do tempo e que o moralismo é uma falsa bandeira de pessoas que possuem a ilusão de serem perfeitas e portadoras dos verdadeiros valores, por que nos preocupamos tanto com nossa reputação? Talvez porque poucos de nós têm um estado de espírito tão elevado quando Theodore Roosevelt (1858-1919) que assegurou: “Eu não me importo com o que os outros pensam sobre o que eu faço, mas, eu me importo muito com o que eu penso sobre o que eu faço. Isso é caráter”. Também porque no passado era necessário sair às ruas para conversar com alguém para sabermos qual a opinião das pessoas sobre nós, hoje, basta alguns cliques. E por que sofremos tanto se não podemos controlar o que os outros pensam a respeito de nós? Shakespeare (1564-1616) em “Muito barulho por nada” asseverou: “qualquer um sabe como cuidar de uma dor, menos quem a sente”, no que Nietzsche (1844-1900) confirmou “É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação”. Se a reputação é manchada por inverdades por indivíduos ou atores sociais, a tentativa de reparação pode ser feita judicialmente, pois, existe o direito à privacidade. O direito a ser deixado em paz. A dor, no entanto, permanece.

Os autores conclamam a sociedade para que a reputação seja tomada pela verdade da vida. Pelas iniciativas. Pelas decisões tomadas. Pelos valores que contam. Pelos princípios respeitados e pelas normas nunca transgredidas, ou então que se mande às favas. Que digam o que quiserem. E citam Jair Rodrigues (1939-2014) quando compôs “Deixa isso prá lá” em que recitava/desabafava “Deixe que digam / que pensem / que falem / deixa isso prá lá […]”. Por que no final, “a reputação é o que os homens dizem de você junto à sua sepultura. O caráter é o que os anjos dizem de você diante de Deus”.

Sugestão de boa leitura:

Título: Reputação: um eu fora do meu alcance.

Autor: Clóvis de Barros Filho e Luiz Perez – Neto.

Editora: Harper Collins, 2019, 192 p.

Preço: R$ 28,72.