A arte de culpar os outros

A arte de culpar os outros e a tentativa de encontrar um bode expiatório para tudo, é uma prática que

A arte de culpar os outros e a tentativa de encontrar um bode expiatório para tudo, é uma prática que acompanha a humanidade há milhares de anos. Os estudiosos dizem que podemos sim nos livrar dela. A tentativa de jogar a culpa por uma situação indesejada de desastres naturais à guerras, de crises econômicas a epidemias – nas costas de um único indivíduo ou grupo quase sempre inocente, é, uma prática tão disseminada que alguns estudiosos a consideram essencial para entender a vida em sociedade. Se observarmos à nossa volta, encontraremos muitos exemplos. Quando um adulto interrompe a briga de duas crianças, uma aponta o dedo inquisidor para a outra: Foi ela quem começou! .

Nos Estados Unidos, o culpado da vez é o 1% mais rico da população, que paga menos impostos do que a classe média. Na América Latina a tradição populista não existiria sem a invenção de inimigos imaginários internos (as oligarquias, os bandos, a imprensa) e extemos (o FMI, os Estados Unidos). A ditadura cubana sustenta-se há cinco décadas sobre a fantasia de que a miséria da sua população se deve ao embargo americano à ilha, e não ao fracasso de seu sistema comunista.

Enquanto vivo, Hugo Chaves chegou a levantar a bizarra hipótese, de que os Estados Unidos haviam provocado câncer nele e em outros quatro presidentes da região diagnosticados com a doença, entre os quais Lula e Dilma Rousseff. Como é possível que explicações irracionais como essas convenças tanta gente, apesar da falta de evidências? Charlie Campbell em seus livros defende a tese de que cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e por isso tem dificuldade de admitir os próprios erros. Adão culpou Eva, Eva culpou a serpente, e assim continuamos assiduamente desde então.

Junte-se a isso a necessidade humana de encontrar um sentido, uma ordem no caos do mundo, e têm-se os elementos exatos para aceitarmos a primeira e a mais simples explicações que aparecer para os males a nos afligir. Desde muito cedo, com o surgimento das primeiras crenças religiosas, a humanidade desenvolveu rituais para transferir a culpa para pessoas, animais ou objetos como uma forma de purificação e recomeço.

A expressão bode expiatório refere-se a uma passagem do velho testamento que descreve o sacrifício de dois ruminantes no Dia da Expiação hebraico. O primeiro bode era sacrificado imediatamente em tributo a Deus, para pagar pelos pecados da comunidade. O segundo era enxotado ao deserto, carregando consigo, a culpa de todos os moradores.

Os gregos antigos tinham um escravo ou um marginal, que era banido para purificar o grupo, e assim afastar as punições dos deuses – pragas, secas e outros desastres.

A escolha do bode expiatório costuma obedecer a pelo menos um de três requisitos. Primeiro, deve ser alguém capaz de substituir sozinho muitas vítimas potenciais. Foi o que aconteceu com Andrés Escobar zagueiro da seleção colombiana de futebol cujo gol contra na partida contra os Estados Unidos eliminou seu time da Copa do Mundo de 1994. Quando voltou à Colômbia, Escobar foi assassinado a tiros, supostamente por apostadores que haviam perdido dinheiro com a derrota. Por maior que tenha sido o erro do jogador, é óbvio que num time com onze jogadores não se pode só atribuir a um deles toda a culpa por um resultado ruim.

O segundo quesito para um candidato a bode expiatório é ser alvo facilmente identificável. Adolf Hitler, um dos mais cruéis inventores de bodes expiatórios, achava que um verdadeiro líder era aquele que em vez de dividir a atenção de seu povo, tratava de canalizá-la contra um grande inimigo. Após séculos de antissemitismo na Europa, foi fácil para os nazistas transformar os judeus em suas vítimas preferenciais, atribuindo a eles a de serem os causadores e beneficiários da crise econômica que assolava a Alemanha.

A expiação coletiva imposta pelos nazistas resultou na morte de 6 milhões de judeus.

E o terceiro quesito para encontrar um bom culpado é suspeitar de qualquer pessoa que tente defender a inocência de um bode expiatório.

Dá pra acreditar?