Em defesa de Evo (Parte dois)

Em vez de discutir a crise com a Boliviana OMC, Lula foi a uma reunião em Puerto Iguaçú, na Argentina,

Em vez de discutir a crise com a Boliviana OMC, Lula foi a uma reunião em Puerto Iguaçú, na Argentina, à qual compareceram Evo Morales, o argentino Néstor Kirchner e o ubíquo Chavez. A presença da Argentina se entende pois o país também compra gás da Bolívia, mas porque a Venezuela?

A resposta possível: Chávez foi falar em nome de Morales, seu discípulo, e deixar claro que dá as cartas na nova geografia do populismo latino-americano. Lula saiu da reunião desenxabido  e, como de praxe, confundiu conceitos. No seu entender, manifestar solidariedade à Bolívia, mesmo quando ela se apossa de um patrimônio que é de todos os brasileiros, significa emitir um sinal positivo de solidariedade continental. A reafirmação da unidade sul-americana, explicou, tranquiliza os investidores estrangeiros. O que ficará na memória dos investidores internacionais é o alerta para evitar uma região sem lei e sem ordem, onde os contratos são desrespeitados. Isto é fácil de fazer, pois não faltam, do outro lado do planeta, oportunidades de investimentos em países sérios e estáveis. A economia da Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, caberia com folga dentro do orçamento da cidade de São Paulo. Sem capital nem tecnologia, não há jeito de o Estado boliviano realizar os grandes investimentos necessários para tirar e processar o gás natural. Evo Morales se sentiu à vontade para tomar as refinaria confiando em duas coisas. A primeira é o fato de o Brasil ser freguês cativo do gás boliviano. A segunda é a ajuda de Hugo Chávez. A estatal de petróleo da Venezuela prepara-se, nas sombras, para assumir os campos de gás que venham a ser abandonados por empresas estrangeiras. Chávez também já acertou o fornecimento de todo óleo diesel que a Bolívia precisa em troca de soja boliviana. Trata-se de uma política do venezuelano para ocupar espaço no continente e influenciar países.

O sociólogo alemão Franz Oppenheimer, morto em 1943, dizia que há duas formas de uma nação acumular riquezas: de maneira racional, através da produção, ou de maneira violenta, por meio da expropriação. Apenas a primeira forma pode ser duradoura. Evo Morales escolheu a segunda ao nacionalizar a exploração e comercialização do gás e do petróleo por decreto. No imaginário popular boliviano – do qual Morales compartilha e se aproveita politicamente – a riqueza oculta do gás vai sanar a miséria e o atraso do país. A Venezuela, com as maiores reservas de petróleo fora do Oriente Médio, tem mais da metade da população vivendo na pobreza. Angola, um dos maiores produtores de diamante de alta qualidade do mundo, tem um terço da renda per capita do Brasil.

Golda Meir, a primeira-ministra de Israel entre 1969-1974, contava, em tom de anedota, que Moisés guiou os judeus durante quarenta anos pelo deserto para leva-los justamente ao único pedaço de areai do Oriente Médio onde não havia petróleo. Completava, em tom mais severo, que não se tratou de maldição, mas de uma benção. “Nossas vitórias não poderia existir sem uma economia de base sólida, um padrão educacional de alto nível entre soldados e civis e a alta capacitação tecnológica dos trabalhadores em todos os setores”, explicava. A estadista israelense tocou naquelas que são as duas principais riquezas de um povo: a educação e o conhecimento tecnológico. “Para ser rico, um país precisa investir em ciência e tecnologia. É dessa forma que se consegue elevar a capacidade das indústrias de produzir melhor e ser mais competitiva no mercado mundial”, diz Roberto Romano, professor de ética e política da Universidade Estadual de Campinas. Foi esse o modela adotado por Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Japão e Estados Unidos – países que têm a riqueza mais bem distribuída entre a população.

(A matéria completa está na Veja, edição 1955 de 10/05/2006)

 

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