Elas fazem a ciência avançar
No ‘Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência’, pesquisadoras destacam o papel das mulheres na produção científica e no impacto social do conhecimento
A ciência ganha novas perguntas, métodos e soluções quando incorpora diferentes trajetórias. No ‘Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência’, celebrado hoje (11), o Jornal Correio do Povo entrevista pesquisadoras de instituições públicas que relatam como a presença feminina transforma a produção do conhecimento, a importância das mulheres no tema e quais trabalhos cada uma está desenvolvendo atualmente. As profissionais apresentam estudos em curso em áreas que vão das exatas às humanas, da saúde ao campo.
Diversidade que transforma o conhecimento
Na físico-química, Gisele Louro Peres, da Universidade Federal da Fronteira Sul em Laranjeiras do Sul, afirma que mulheres ampliam olhares e rompem com uma ciência historicamente excludente. “A presença feminina rompe com uma ciência historicamente excludente e traz diversidade de experiências, sensibilidades e trajetórias, fortalecendo a produção do conhecimento. Fazer ciência vai além do laboratório. É pesquisar, ensinar, comunicar e transformar realidades”, diz. “Ao meu ver, as mulheres na ciência desafiam estruturas desiguais, inspiram novas gerações e constroem uma ciência mais humana, ética e socialmente comprometida. Quando mulheres ocupam esses espaços, em todas as áreas, a ciência avança não apenas em inovação, mas também em justiça, equidade e representatividade”, completa Gisele.
Ela atua em nanotecnologia verde, química ambiental, biossensores, cosméticos de base natural e tecnologias sustentáveis, além da interface entre ciência, educação e divulgação científica.
Também na físico-química, Yasmine Miguel Serafini Micheletto, também da UFFS Laranjeiras, destaca o papel de referência para meninas e jovens. “As mulheres na ciência fortalecem a igualdade de gênero, criando modelos de referência para meninas e jovens. Mesmo com múltiplas funções, contribuímos com a ciência da mesma forma que os homens”, afirma. Atualmente, desenvolve modelos e experimentos didáticos de química e física.
Humanidades, saúde e educação em foco
Ainda em Laranjeiras, na antropologia social, Fernanda Marcon reforça que não há determinantes genéticos para o desempenho científico. “A importância é a mesma em qualquer área”, diz. Sua pesquisa envolve etnomusicologia, antropologia da performance e estudos sobre infâncias e juventudes, além de projetos culturais com o ‘Quilombo Invernada Paiol de Telha’, de Reserva do Iguaçu. “Na docência, sou professora dos cursos de Educação do Campo Ciências Sociais e Humanas e de Ciências Sociais Licenciatura”, completa.
Na bioquímica metabólica, Luisa Helena Cazarolli aponta que equipes diversas geram soluções mais criativas e com menos vieses. “A presença de mulheres em equipes de pesquisa aumenta a produção de soluções mais criativas, e há a contribuição com novos olhares e abordagens complementares. Além disso, mulheres cientistas são referências e modelos”, afirma.
Luisa desenvolve pesquisas sobre efeitos de plantas, compostos e produtos biotecnológicos e proteínas alternativas (aspectos metabólicos, fisiológicos, de segurança, eficácia) em organismos aquáticos e insetos.Na educação musical, Andréia Schach Fey, da rede estadual do Paraná, em transição para a Universidade Estadual de Londrina (UEL), ressalta a complementaridade de olhares. “Nossa importância na ciência não está em afirmar que somos melhores do que os homens, mas em reconhecer que a presença feminina amplia as formas de pensar, observar e interpretar o mundo. As mulheres trazem para a pesquisa científica percepções sensíveis, experiências de vida e modos de olhar que, somados aos dos homens, enriquecem o conhecimento produzido. Quando há diversidade, as perguntas mudam e os resultados se tornam mais humanos”, diz. No momento, Andréia pesquisa sobre educação musical, focando em gênero, repertório e ensino, com foco na valorização de compositoras. “Realizei mestrado e doutorado, sendo que minha pesquisa de mestrado teve como objetivo retirar as mulheres da sombra da história da música, dando visibilidade às compositoras e musicistas que, historicamente, foram silenciadas ou pouco representadas. Esse trabalho esteve voltado especialmente à análise de livros didáticos, entendidos como materiais centrais na formação de repertórios e na construção de valores, referências culturais e opiniões das novas gerações”, diz. “Na UEL, pretendo dar continuidade às pesquisas voltadas à valorização das mulheres na música, aprofundando discussões sobre currículo, materiais didáticos e formação docente, e atuarei diretamente na formação de professoras e professores de música”.
Ciência aplicada ao campo e à coletividade
Na agronomia, Cláudia Simone Madruga Lima, da UFFS, enfatiza pertencimento e impacto social. “Falar de mulheres na ciência é falar de pertencimento, respeito e reconhecimento da competência feminina em todos os espaços, seja no laboratório, no campo ou na gestão acadêmica. Mulheres inspiram outras meninas a ocupar esses espaços”, afirma. Suas pesquisas em fruticultura buscam produtividade, sustentabilidade e viabilidade econômica, com forte vínculo com a extensão rural. “Com a cultura do morangueiro, atuo há mais de 20 anos, desenvolvendo estudos que buscam melhorar a produtividade, a sustentabilidade e a viabilidade econômica das propriedades rurais”.
Na química de interface, Alessandra Machado Lunkes, da Universidade Técnica Federal do Paraná (Utfpr), em Francisco Beltrão, aponta novos olhares e temas antes negligenciados. “Pesquisas preocupadas com a coletividade fortalecem a ciência”, diz. Ela estuda produtos naturais hidrofóbicos para conservação de alimentos.Na enfermagem e saúde, Julyane Felipette Lima atua com tradução do conhecimento, inovação e inteligência artificial. “Nossa perspectiva ajuda a enfrentar problemas mais profundos da sociedade”, afirma, destacando o estímulo ao trabalho em rede entre pesquisadoras. Hoje, Julyane aplica seus esforços em inovação em saúde e inteligência artificial. “Por ter uma empresa que nasceu na universidade entendendo tanto da parte quanto de mercado, o que me fez ver a relevância de promover nosso trabalho”.
Por fim, na química analítica, Liziara Cabrera, da UFFS em Chapecó, observa que o reconhecimento tardio não impediu a contribuição histórica feminina. “As mulheres sempre estiveram envolvidas na ciência, no entanto, não tinham reconhecimento. Hoje somos protagonistas. Também acredito que a maioria das mulheres humanizam a ciência, principalmente na área das exatas”, diz. Ela trabalha com monitoramento ambiental e identificação de compostos emergentes.



