Drummond fez da vida comum matéria de poesia

Autor mineiro transformou o cotidiano em reflexão universal e se tornou um dos maiores nomes da literatura brasileira

Um dos maiores nomes da literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade construiu uma obra marcada pela reflexão sobre a vida comum e pelas transformações sociais do século XX. Nascido em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902, ele se tornou referência do modernismo e influenciou gerações de escritores e leitores.
Desde cedo, Drummond teve contato com a educação formal, mas também enfrentou episódios que marcaram sua trajetória. Em 1919, foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, por insubordinação mental, após divergências com um professor. Anos depois, formou-se em Farmácia, em Belo Horizonte, mas não exerceu a profissão. Preferiu seguir carreira ligada à escrita e ao serviço público.

Carreira literária e atuação pública
O primeiro livro, ‘Alguma poesia’, foi publicado em 1930, com recursos próprios. A obra marcou sua entrada definitiva na literatura e apresentou traços que se tornariam característicos. No mesmo período, iniciou carreira no serviço público, atuando como chefe de gabinete do então ministro da Educação e Saúde Pública, Gustavo Capanema.Mais tarde, trabalhou na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde se aposentou em 1962. Paralelamente, manteve intensa produção literária e atuação como cronista. O reconhecimento nacional veio com a publicação de ‘Poesias’, em 1942, consolidando seu nome entre os principais autores brasileiros.Ao longo da carreira, recebeu importantes prêmios, como o ‘Jabuti’, em 1968, e o ‘Morgado de Mateus’, em Portugal, em 1980. Também foi reconhecido com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 1982.

Estilo e temas universais
Drummond integrou a segunda fase do modernismo brasileiro, período marcado pela liberdade formal e pela abordagem de temas sociais e existenciais. Sua poesia se destacou pela linguagem simples e pela capacidade de transformar situações comuns em reflexões profundas.Temas como o amor, o tempo, a solidão e a vida cotidiana aparecem com frequência em seus textos. Ao tratar de experiências pessoais e locais, o autor alcançou um sentido universal, aproximando o leitor de questões humanas essenciais.Entre suas obras mais conhecidas estão ‘Sentimento do mundo’, ‘A rosa do povo’ e ‘Claro enigma’. Além da poesia, também publicou crônicas e contos, ampliando sua presença na literatura brasileira.

Legado
Carlos Drummond de Andrade morreu em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro, aos 84 anos. Sua obra permanece como uma das mais relevantes da literatura nacional, estudada em escolas e universidades e lida por diferentes gerações.
Com uma escrita marcada pela simplicidade e pela profundidade, Drummond ajudou a renovar a poesia brasileira e deixou um legado que atravessa o tempo, mantendo sua importância no cenário cultural do país.

Um dos poemas mais conhecidos de Drummond é ‘José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?