“A conta não fecha mais para quem vive do leite”, relata produtor diante da crise

Produtores relatam prejuízos contínuos, desigualdade no mercado e abandono da atividade diante da falta de previsibilidade

O Sul do Brasil, especialmente o Paraná, é referência na produção de leite, abastecendo milhões de famílias e movimentando bilhões de reais por ano. Mas por trás dos números impressionantes, pequenos e médios produtores enfrentam uma crise sem precedentes, marcada por preços abaixo do custo, aumentos nos custos de insumos e falta de políticas públicas eficazes. Silvonei de Oliveira, produtor da região, relata a realidade do campo: “Hoje o preço do litro de leite não cobre os custos de produção. Já faz sete meses que a conta não fecha. Há produtores recebendo R$ 1,50 ou R$ 1,70. Muitos já abandonaram a atividade e outros vão ter que fazer o mesmo se não houver reação rápida do mercado”, afirma.

Custos altos e infraestrutura precária

A manutenção de um rebanho exige ração, energia, mão de obra e cuidados técnicos. Para produtores de assentamentos, como Silvonei, a situação se agrava. “Temos mão de obra própria, mas se precisássemos contratar seria muito pior. Aqui não temos energia de qualidade, e quando falta luz é leite perdido. Estradas ruins fazem com que os laticínios paguem menos, desanimando cada vez mais o produtor”, conta.

O custo da silagem e de insumos também pressiona. Silvonei explica:
“Se o leite mantivesse em R$ 2,50 a R$ 2,80, dava para trabalhar. Mas do jeito que está, todos os meses temos que vender vacas ou terneiros só para pagar contas”, explica.

Concorrência desigual e leis sem fiscalização

A concorrência com produtos importados e subsidiados de outros países agrava a crise. Segundo Silvonei: “A concorrência é desleal. Produtores de outros países recebem incentivos, não pagam tantos impostos e não têm tantas exigências sanitárias. Aqui, cumprimos todas as normas e ainda assim recebemos menos”, diz Silvonei.

Mesmo com leis criadas para proteger o setor, a falta de fiscalização torna a proteção ineficaz. “A lei existe, mas não é fiscalizada. Além disso, os subsídios não estão chegando até nós produtores”, conta.

Pequenos produtores em desvantagem

Além da competição externa, há desigualdade entre produtores: “O pequeno recebe 20 ou 30 centavos a menos, e o grande recebe mais porque tem mais vacas e maquinário. Isso limita o crescimento e mantém o pequeno preso a um ciclo de prejuízo,” explica.

Ele ainda alerta sobre o controle exercido pelos laticínios: “Eles combinam preços entre si e controlam o mercado. Se você quiser sair, não há para onde vender. É um verdadeiro cartel que sufoca o produtor.”

A urgência de políticas de apoio

Na avaliação dos produtores, a ausência de uma política nacional estruturada para o leite agrava o cenário. Silvonei defende a criação de um preço mínimo que permita previsibilidade. “O produtor não pede lucro alto, pede um preço mínimo. Se soubéssemos o mínimo que iríamos receber, daria para planejar. Hoje o leite cai 20% ou 30% de um mês para o outro e ninguém consegue se organizar”, relata.

Quando parar vira a única saída

A crise já tem provocado o encerramento de propriedades leiteiras na região. Um produtor do município de Rio Bonito do Iguaçu, Marcos Falkemback, que deixou a atividade após 16 anos, resume a decisão. “Produzir um litro de leite me custava cerca de R$ 2,20 e eu recebia R$ 1,98. Não compensava mais. Foram 16 anos da família trabalhando, investindo em qualidade e cuidando dos animais, mas o cenário se tornou inviável. Parar não foi fácil, muda toda a rotina, mas se tornou necessário. Muitos vizinhos também estão saindo, porque o leite deixou de ser uma atividade sustentável para o pequeno e o médio produtor”, conclui Marcos.