Marcelo Galera e Tais Baroni guardam o que o tempo apaga

No Dia do Fotógrafo, casal fala sobre carreira, memória e o compromisso de registrar o presente para o futuro

Muito além da estética, a fotografia cumpre um papel essencial como documento histórico. Em cidades do interior, onde grandes acontecimentos raramente são registrados de forma sistemática, imagens produzidas por profissionais locais acabam se tornando um dos principais acervos da memória coletiva. Cada ensaio, cobertura ou álbum de família guarda fragmentos do cotidiano que, reunidos, contam histórias que a mente sozinha não consegue preservar. Para fotógrafos, esse compromisso entre beleza e verdade é diário. Captar o espontâneo, o real, o imprevisto, é o que diferencia um clique comum de um registro que atravessa gerações.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Correio do Povo do Paraná, o casal de fotógrafos Marcelo Galera e Tais detalham a trajetória profissional, os bastidores da carreira e a missão de transformar a fotografia em um documento vivo de memória, capaz de preservar histórias que o tempo não permite repetir.

A carreira que começou sem roteiro

Marcelo entrou na fotografia por oportunidade, indicado por uma amiga para uma vaga como fotógrafo de eventos e baladas na região de Laranjeiras, há 13 anos. Comprou a primeira câmera sem conhecimento técnico e começou fotografando no modo automático, sem editar imagens e quase sem pretensão profissional. O ponto de virada veio no primeiro ensaio externo, feito de forma experimental com a mesma amiga. Milhares de cliques depois, nasceu o interesse pelos retratos. Vieram ensaios gratuitos, portfólio e, gradualmente, os primeiros clientes pagantes.

Formado em Artes Visuais em 2013, Marcelo lecionou por apenas três meses antes de encerrar o ano letivo e decidir abrir a empresa. Rejeitou a opção do PSS e, em um “tiro no escuro”, financiou R$ 5 mil para comprar itens básicos, alugou uma sala pequena e iniciou a marca que hoje é conhecida e procurada. A bagagem artística da faculdade segue presente no estilo que busca imprimir nas imagens, com composições criativas, mais artísticas e conceituais, quando o cliente confia na proposta. “A fotografia é minha arte aplicada”, afirma Marcelo.

Olhares que se somam e se dividem no estúdio

Tais entrou oficialmente na fotografia há 7 anos e assumiu o universo infantil do estúdio. A divisão de funções se tornou um pilar do negócio. Marcelo cuida de ensaios adultos, adolescentes e editoriais. Tais responde por todo o fluxo do infantil.

Nos grandes eventos, como aniversários e casamentos, o trabalho em dupla virou a assinatura do casal, unindo olhares complementares e garantindo registros mais seguros.

Bastidores e desafios

Entre as histórias marcantes da carreira, Marcelo recorda um casamento em que a câmera estragou exatamente na entrada da noiva. O equipamento falhou em um momento crucial, comparado por ele a uma apresentação de TCC, em que “nada pode dar errado”. O episódio, vivido no meio da trajetória profissional, redefiniu o protocolo do estúdio. A partir dali, vieram práticas de segurança: equipamentos backup, cuidado redobrado com manutenção e logística de prevenção de falhas. “Esse dia mudou a forma como pensamos a fotografia na prática. Segurança virou prioridade”, conta.

O desafio mais presente no nicho deles não é técnico, mas humano: fazer pais de bebês e companheiros de gestantes participarem das sessões com leveza e cooperação. “Os homens ainda chegam amarrados, obrigados, sob negociação. Fazer sorrir sem reclamar é um desafio diário”, afirma Marcelo, com naturalidade.

O que torna uma imagem inesquecível

Para o casal, imagens inesquecíveis nascem de emoções genuínas. Em casamentos, o altar aponta para os noivos, mas o fotógrafo aponta para as pessoas. É ali, de frente para o público, que eles capturam o inesperado: crianças correndo na igreja, convidados emocionados, olhares fora do script, abraços que ninguém mais vê. “O aleatório é o ouro da fotografia. É onde a emoção mora”, define.

Marcelo também destaca o orgulho do processo criativo: quando a imagem artística é compreendida, abraçada e confiada pelo cliente, a fotografia se torna inesquecível também para quem a produz. “Quando confiam na nossa visão, a imagem vira realização profissional”, diz ele.

A fotografia como herança

A dupla reforça a importância da preservação das fotos em papel, fisicamente, como um recurso seguro e afetivo de memória. Embora admitam que hoje o celular tem causado certo desligamento do hábito de registrar momentos pessoais, reconhecem que o que conta a história real de uma família ou cidade é justamente o que não foi posado. “As gerações futuras só vão saber o que vivemos se houver fotografia para contar”, pontua.

Tornado que levou paredes e trouxe novos caminhos

No fim de 2025, o tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu destruiu a casa e o escritório do estúdio do casal, acelerando a mudança para Laranjeiras do Sul, plano que já existia: “O tornado levou e também trouxe. Já pensávamos em Laranjeiras, mas ele nos empurrou para cá”, conta Marcelo. A rotina mudou completamente. “A sala cedida por nossos clientes amigos, Castelo e Edir, permitiu manter a nossa agenda de Natal por dois meses”, conta Marcelo. Sem registros documentais oficiais da destruição, eles priorizaram reorganizar o trabalho e registrar voluntários e a rede de apoio que se formou em torno da fotografia. Para o casal, imagens e vídeos garantirão que as próximas gerações conheçam o antes e o depois da história, sem depender apenas de relatos. Agora, com 80% dos clientes já baseados em Laranjeiras, a marca inicia um novo capítulo mais próxima do público que já acompanhava o trabalho da dupla.

Registrar o presente para lembrar o futuro

A trajetória do casal evidencia o papel múltiplo do fotógrafo: profissional, contador de histórias e guardião de memórias. No Dia do Fotógrafo, Marcelo e Tais reforçam que cada cobertura, especialmente em grandes eventos, carrega um compromisso que vai além da técnica, apoiado em preparação, rotina e olhares complementares. O legado do ofício, segundo eles, está na capacidade de registrar o presente para permitir que o passado seja lembrado com precisão no futuro.