Páscoa une diferentes religiões em reflexões sobre fé e renovação
Católicos, protestantes e espíritas compartilham como vivem e compreendem o sentido da Páscoa na vivência e no cotidiano
A celebração da Páscoa, uma das datas mais importantes do calendário cristão, ganha diferentes significados conforme a tradição religiosa. Para compreender essas visões, líderes e fiéis de três religiões compartilharam como enxergam o sentido da data. Católicos, protestantes e espíritas destacam elementos como renovação, amor, sacrifício e vida nova, ainda que com abordagens próprias de cada crença.
Entre os católicos, participaram o Padre Sebastião Gulart, pároco da Igreja Matriz Sant`ana, além dos fiéis Douglas Kieling e Camila Marochi Tolazzi. Entre os protestantes, falaram o pastor Cesinha Sitta, Day Lima e Francielli Joaquim. Representando o espiritismo, participaram o presidente da União Regional Espírita Diogo José Siqueira, além das fiéis Eleonora Escobar Tosetto e Yasmin Tomazi.
As falas revelam pontos em comum, como a esperança e a transformação, e também diferenças na interpretação teológica. A seguir, cada um deles explica o significado da Páscoa em sua vivência de fé.
Católicos
Padre Sebastião Gulart
“A Páscoa representa passagem e libertação. Ele destaca que a ressurreição de Cristo simboliza a vitória sobre a morte e a possibilidade de vida nova. A celebração também é vista como tempo de reconciliação, renovação espiritual e fortalecimento dos laços familiares. Feliz Páscoa a todos, que Deus abençoe, que possamos continuar trilhando o caminho de Páscoa, um caminho de vida nova”, afirma o pároco da Igreja Matriz Sant`ana.
Douglas Kieling
“A Páscoa é o coração da minha fé, Cristo vence a morte e nos chama conversão, não é sobre consumo, é sobre sacrifício, não é comércio, é cruz, não é aparência, é verdade, é um chamado real a uma vida nova em Deus, vivida na alegria da certeza da ressurreição”, diz.
Camila Marochi Tolazzi
“A Páscoa é como o centro do mistério da fé cristã, a morte e ressureição do Nosso Senhor. Para mim, a data representa a morte e ressurreição de Cristo e a promessa da vida eterna. O período da quaresma convida à conversão e reflexão. A data também reforça a importância do Tríduo Pascal, momento de reviver o amor, o sacrifício e a esperança na renovação espiritual. Hoje, bem viver a Páscoa é como um grito de júbilo esperançoso que resiste e ecoa em nossas almas”, afirma.
Protestantes
Pastor Cesinha Sitta
O pastor define a Páscoa como substituição. “Quando eu penso em Páscoa, a primeira palavra que eu penso é a palavra troca, ou talvez a palavra mais apropriada para isso seria Vicária. Jesus tomou o lugar da humanidade na cruz, permitindo o perdão e a vida eterna. A morte vicária de Cristo é vista como demonstração de amor e redenção para todos. Ele trocou conosco de lugar para podemos viver para sempre, viver uma vida eterna ao lado do nosso Pai. Louvado seja Deus”.
Day Lima, conhecida como ‘Creide’
Para Day, a Páscoa representa redenção e novo começo. “Quando penso na Páscoa, meu coração responde rápido: foi por mim! E isso muda tudo. Porque o sacrifício de Jesus Cristo não foi só um evento histórico, foi um ato de amor que me alcança hoje. A Páscoa é sobre redenção, graça e um novo começo”.
Francielli Joaquim
Francielli resume a Páscoa como amor incondicional. Para ela, a morte de Jesus é um amor incondicional, que se entregou total e gratuitamente. “Jesus morreu por nós e isso é amor que não se negocia. Páscoa: amor que se deu por completo e não exige”.
Espíritas
Diogo José Siqueira
“A Páscoa é o momento em que nosso Mestre Jesus Cristo demonstrou que a vida não acaba na morte do corpo, que a renovação da vida se dá em espírito, libertando-nos do orgulho e do egoísmo, e praticando as lições eternas de amor a Deus e ao próximo como amamos a nós mesmos”.
Eleonora Escobar Tosetto
Eleonora explica que, na visão espírita, a Páscoa é um processo de transformação interior. “Na visão da Doutrina Espírita, a Páscoa não é centrada em rituais externos ou em uma comemoração material, mas sim em um processo íntimo de transformação espiritual. É um convite à renovação interior, ao renascimento da alma, vivendo a caridade, o perdão e o amor a cada dia, como ensinou Jesus Cristo”.
Yasmin Tomazi
Para Yasmin, a Páscoa destaca a imortalidade da alma e a renovação constante. “A Páscoa destaca a imortalidade da alma, a renovação constante. A aparição de Jesus em corpo espiritual é compreendida como a demonstração de que a vida prossegue além do corpo físico, comprovando a natureza espiritual do homem. Ela é um convite de renovação e transformação pessoal, para abandonar imperfeições e caminhar rumo ao progresso individual”.
Entre gerações, o sentido da Páscoa que resiste
A Páscoa não é apenas uma data no calendário, é um território de memória, fé e transformação. Entre lembranças de infância, rituais familiares e reflexões da vida adulta, a Semana Santa segue sendo vivida de diferentes formas, mas com um elo em comum: a busca por sentido.
Em relatos que atravessam gerações, moradores reconstroem uma época em que o silêncio era regra, o respeito era visível e a fé ocupava um espaço central na rotina das famílias.
O tempo do silêncio e da devoção
Para o advogado Marco Aurélio Pellizzari Lopes, a Semana Santa de décadas passadas era marcada por uma espécie de suspensão do cotidiano. “Começava com o Domingo de Ramos, na sexta-feira, o dia da morte de Jesus Cristo, era absolutamente de abstinência de carne. Existia a ‘via-sacra’, o dia era de silêncio e recolhimento”, relembra. Ele reforça que o período era vivido com rigor: “A sexta-feira era quase que um dia sagrado, em absoluto”.
A mesma essência aparece no relato de Maria Izabel Dominik, que cresceu em um ambiente onde o recolhimento era parte natural da fé. “Na sexta-feira da Paixão, não fazíamos trabalhos braçais além do necessário, e passávamos o dia cultivando o silêncio”, conta. Para ela, essas práticas sempre fizeram sentido: “Sempre entendi como parte do espírito de silêncio e oração”.
Já Bruna Dallagnol traz a perspectiva de uma comunidade pequena, onde a fé era construída coletivamente. “Pai e mãe ensinavam que era uma semana de silêncio, de respeito e a gente realmente sentia isso”, afirma. A lembrança mais marcante vem da Sexta-feira Santa: “Às 15h, estávamos na igreja, eu, ainda pequena, ficava olhando e me perguntando: por que ela chorava tanto?”. Hoje, adulta, ela completa: “Naquele momento tão profundo, eu também me emociono”.
Para Maria Inês Covalski Arboit, a vivência também foi guiada pela tradição. “Fazia porque era isso, não havia discussão ou explicação”, diz, ao lembrar da infância. Com o tempo, no entanto, veio a reflexão: “O que sempre me intrigou é o fato de grande quantidade de pessoas celebrar mais a morte de Jesus que a sua vida. Jesus está vivo e é isso que temos que celebrar”.
Entre mudanças e permanências
Se o passado é lembrado com rigor e intensidade, o presente é visto com um olhar mais crítico. Para Marco Aurélio, houve uma mudança significativa na forma como a Páscoa é vivida. “Hoje em dia as crianças esperam presentes, a sociedade foca no comércio”, observa. Ao comparar com sua juventude, ele destaca: “Naquele tempo, o período era mais formal, respeitado, tradicional, a Semana Santa era levada muito a sério”.
Maria Izabel também percebe essa transformação, mas aponta para a resistência da fé: “As práticas consumistas podem ofuscar o real sentido da Páscoa, mas no coração das pessoas que têm fé, a verdade ainda existe, e por isso nunca se apagará”.
Bruna enxerga a mudança por outro ângulo, mais íntimo. Para ela, o sentido se fortaleceu com o tempo. “Hoje eu sinto que dou muito mais valor a tudo isso, procuro me entregar de verdade na minha fé”, afirma. A Páscoa, segundo ela, deixou de ser apenas tradição para se tornar experiência: “É um tempo em que eu realmente paro, reflito e me conecto”.
Já Maria Inês, chama atenção para a prática sem compreensão: “Ainda há muita tradição praticada sem sentido ou sem entendimento do real significado da Páscoa”, diz, ao destacar a importância de viver o período com consciência.
Memórias que permanecem
Apesar das transformações, há algo que atravessa todas as histórias: a memória afetiva. Seja no silêncio das igrejas ou no calor das reuniões em família, a Páscoa também se constrói nos detalhes.
Bruna guarda com carinho as lembranças após a Sexta-feira Santa. “Minha mãe sempre tinha pronto o pé de moleque, era o ‘docinho da minha infância’”, conta. Para ela, o sabor está diretamente ligado à fé e à família: “Depois de toda a reflexão nós celebrávamos juntos”.
Maria Inês também mantém viva uma tradição própria: “Temos o costume de distribuir cascas de ovos higienizadas e pintadas, recheadas com amendoim caramelizado, tem a ver com a doçura e gentileza do amor de Jesus por nós”.
Marco Aurélio relembra momentos que iam além da religião. “Na época da Páscoa, meus padrinhos faziam questão que eu fosse até a casa deles, não voltávamos sem uma sacola de frutas”, diz. A cena permanece viva na memória: “Ele usava terno de linho branco e chapéu panamá, era tudo muito formal”.
Já Maria Izabel carrega como exemplo o compromisso dos avós. “Mesmo idosos, participavam de encenações, liturgias, vigílias”, recorda. Para ela, essa vivência deixou uma lição permanente: “Mostrou que essa semana não era só mais uma no ano, carregava um profundo significado”.
Entre o passado e o presente, a Páscoa se revela como uma experiência em constante transformação. Mudam os costumes, mudam os cenários, mas, nas palavras e nas lembranças de quem viveu e ainda vive esse tempo, o essencial segue resistindo.



